Crescem as apreensões de droga na Grande BH. Os flagrantes envolvendo maconha, crack, cocaína, ecstasy e LSD aumentaram em 22 dos 33 municípios da região. Para a polícia, os números refletem as ações de combate. Especialistas, porém, reforçam que só a repressão não basta. E acrescentam que os registros provam o quanto o tráfico continua elevado.

O ritmo de recolhimento dos entorpecentes é maior nas cidades vizinhas do que na capital, conforme os dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), obtidos via Lei de Acesso à Informação. O levantamento foi feito considerando os últimos sete anos, de 2012 a 2018.

Nova Lima lidera o crescimento proporcional da retirada de circulação das substâncias ilícitas: 22%. Para efeito de comparação, em toda região metropolitana a média foi de 4%. O tenente Jeferson Campos, da 1ª Cia Independente da PM, diz que a relação de confiança criada com a população contribui para o cenário. “Gera, por exemplo, aumento de denúncias pelo 181. O cidadão é o maior conhecedor dos problemas da comunidade”. 

A localização geográfica dos municípios também influencia nas estatísticas. Caso de Vespasiano – segundo na lista –, destaca o tenente-coronel Gilmar Luciano, responsável pelo 36º Batalhão da PM, situado por lá.

“Estamos em uma cidade cortada por duas rodovias: a MG-424, que liga a Sete Lagoas e Pedro Leopoldo, e a MG-010, que conecta a capital ao Aeroporto de Confins. São vias de trânsito rápido, onde passam milhares de pessoas, e o narcotráfico se aproveita disso”. 

O oficial diz que o foco da corporação é coibir os crimes violentos que, na região, estão mais relacionados às guerras entre gangues de traficantes. Desta forma, acrescenta o militar, apreensões de drogas acabam sendo constantes. 

“Ao contrário do que acontece em outros locais, em Vespasiano o crack e a cocaína são as drogas mais recolhidas, e não a maconha. Aliada a isso, há também muitas apreensões de armas de fogo”, afirma o tenente-coronel.

Preocupação

Para o sociólogo Luiz Flávio Sapori, que já ocupou o cargo de secretário-adjunto de Segurança de Minas, é necessária uma preocupação especial com as cidades ao redor da metrópole.

“Sabemos que a droga continua a circular e vai continuar existindo para quem quiser consumir. Não há exemplo de ação repressiva no mundo que deu conta de resolver a questão. Não se acaba com drogas só através da repressão”, afirma o especialista, que também já coordenou o Instituto Minas pela Paz.

Segundo o major Flávio Santiago, porta-voz da Polícia Militar, “o combate sistematizado ao tráfico é constante em todo Estado”. 

Palavra do especialista

“O crescimento das apreensões também está ligado ao aumento do tráfico que, por sua vez, está conectado ao sistema carcerário. É um ciclo. Ou seja, colocamos jovens primários nos presídios superlotados que são chefiados por facções criminosas. De lá, eles saem como soldados dessas organizações. Hoje, a cada três prisões, uma é decorrência do tráfico de drogas. Todo discurso fácil é perigoso. Portanto, combater a criminalidade com aumento de reprimenda é mascarar a ineficiência do Estado na criação de condições mínimas de sobrevivência. A lei de drogas precisa ser revista. Há, inclusive, um debate forte na sociedade, que deve ser pautado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), discutindo a descriminalização”
Négis Rodarte
Advogado criminalista e Conselheiro Estadual 
da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG)

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