Usadas muitas vezes como rotas alternativas para fugir dos congestionamentos, ruas de bairros distantes da área central de BH têm passado por transformações para absorver o volume de tráfego na região. Nos últimos quatro anos, 270 mudanças foram implantadas em diferentes vias, que deixaram de ser mão dupla para ter um só sentido de direção. O cenário reforça uma tendência nas grandes metrópoles.

A BHTrans evita antecipar novas alterações, informando que o objetivo é dar mais segurança e garantir fluidez no trânsito. Especialistas garantem que as ações são válidas, mas devem vir acompanhadas de outras medidas, como a redução das vagas de estacionamento, melhoria do transporte público e incentivo aos meios alternativos de locomoção, como bicicletas compartilhadas. 

Para implantar a nova circulação, a empresa que gerencia o tráfego da cidade realiza estudos técnicos. Um dos pontos analisados é qual sentido da rua recebe mais veículos. Fluxo de pedestres, presença de estabelecimentos comerciais e de linhas de ônibus também são levados em conta, além de sugestões da própria população.

“Toda vez que se tem um conflito de espaço, você precisa reorganizar o trânsito”, afirma o professor Paulo Rogério Monteiro, do Departamento de Engenharia da PUC Minas e especialista em planejamento de transportes.

As alterações, que dividem as opiniões de condutores, pedestres e moradores, exigem paciência e atenção redobrada. A mais recente ocorreu na rua Crisandália, no Caiçara, Noroeste da capital. Quem segue pela rua Belmiro Braga não pode mais convergir à esquerda desde a semana passada. 

O motorista aposentado Eurico Braga, de 75 anos, não aprovou a mudança. Ele mora na rua Rosinha Sigaud e o percurso para chegar em casa ficou mais longo e estressante. “Agora é preciso andar mais dois quarteirões na Belmiro Braga, que naturalmente já era muito movimentada. O trajeto está mais cansativo”.

No bairro Alto Vera Cruz, Leste da metrópole, foram quatro alterações no sentido de circulação em abril. Uma delas na rua Fernão Dias, uma das mais movimentadas da região. “Melhorou demais, o trânsito era uma muvuca por causa das lojas. Agora, com mão única, os congestionamentos são menores”, diz o auxiliar de limpeza Geílson Nunes, de 42 anos.

Confuso

Já no bairro Saudade, também na zona Leste, parte da população reclama do impacto no transporte público. Nove linhas que passavam pela rua Juramento tiveram o itinerário modificado e os terminais de embarque, realocados. Porém, o ponto de ônibus permaneceu na rua, o que confunde os usuários. “Hoje já acostumamos. Mas, no início, tinha muita gente esperando o ônibus no local desativado”, contou Emerson Viana, de 35 anos, que trabalha na região.

Moradora do Cidade Nova, na regional Nordeste, há 13 anos, Márcia Pena também afirma que a mudança na circulação de várias ruas do bairro pegou muitos de surpresa. “Aqui na Plínio de Morais tem sempre um distraído que se esquece do trecho que virou contramão e acaba entrando errado”, diz. “A pessoa fica muitos anos fazendo o mesmo trajeto e, às vezes, tem dificuldade de se adaptar".

rua crisandália
Alteração de circulação na rua Crisandália, no bairro Caiçara, ocorreu na semana passada

Influência dos aplicativos

O crescimento dos bairros, com cada vez mais opções de comércio e serviços, também ajuda a explicar o aumento do fluxo de automóveis. No entanto, a largura das ruas não foi planejada para suportar um trânsito mais intenso.

“Essas vias não têm espaço necessário para o tráfego em dois sentidos”, garante Márcio Aguiar, professor de engenharia de transporte e trânsito da Universidade Fumec.

A demanda por aplicativos de transporte, sobretudo nos últimos cinco anos, também tem influenciado. “Esses apps escolhem o melhor caminho levando em conta o menor tempo”, afirma o professor de segurança viária do Cefet-MG Agmar Bento.

As alterações de circulação nas ruas, acrescenta Bento, são positivas, mas afetam a qualidade de vida dos moradores. “Aumenta o nível de ruídos, de poluentes e torna o ambiente mais inseguro para pedestres”.

Mentalidade

Para a consultora de planejamento urbano e transportes Natália Bavoso, a busca por mais eficiência levará a mais alterações. Segunda ela, a única maneira de evitar transtornos é com uma profunda mudança. “Precisamos aumentar o uso do transporte público e, assim, melhorar a eficácia das vias. Além disso, é preciso pensar em outros modos não motorizados, como as bicicletas e patinetes”.

Superintendente de Ação Regional da BHTrans, Maria Odila Matos esclarece que as medidas visam a convergir os interesses de motoristas, pedestres, comerciantes e usuários do transporte público. “A gente não torna uma via em mão única à toa. Ela acontece após um estudo que identifique a necessidade”. 

Sobre a queixa da mudança de pontos de ônibus, ela diz que os usuários são informados com cartazes nos coletivos, divulgações em redes sociais e na imprensa. Conforme a BHTrans, as modificações de circulação nas vias são comunicadas com, no mínimo, sete dias de antecedência.

Rua mão única