Quase um mês após a inauguração da Área Integrada de Segurança Pública (Aisp) no Aglomerado da Serra, zona Sul de Belo Horizonte, moradores denunciam que ainda não viram cessar os intensos tiroteios devido à disputa por pontos do tráfico de drogas na maior favela da capital mineira. Os disparos assustam tanto quem vive na comunidade quanto no entorno.

Nas últimas semanas, moradores de ruas que dão acesso ao aglomerado relataram ter ouvido barulhos de tiros quase todos os dias, geralmente perto da meia-noite. Os que aceitam conversar com a imprensa só o fazem na condição de anonimato, pois temem represálias.

Como uma dona de casa de 39 anos, que há 15 vive na rua Guaxupé, a poucos metros da “Igrejinha”, uma das entradas do aglomerado na área comandada pela Organização Terrorista Arara (OTA), a principal das quatro maiores gangues atuantes na Serra.

Nesse ponto, segundo os vizinhos, é intenso o movimento de pessoas envolvidas com a venda e a compra de entorpecentes. “Todos os dias, principalmente à noite. Meu marido e meus três filhos nem gostam de sair de casa, com medo”, afirma a dona de casa. Ela conta que um dos últimos tiroteios foi na segunda-feira passada, por volta das 23h. Durou cerca de três minutos.

Quem busca não mudar a rotina relata experiências inusitadas e até mesmo perigosas. Uma professora aposentada de 69 anos, moradora da rua Henrique Passini, esquina com Guaxupé, relembra que há algumas semanas, quando voltava da casa da filha, se deparou com um motociclista atirando para o alto na rua Capivari. Era por volta de 22h. “Não acertou ninguém, mas é uma sensação horrorosa”.

Para ela, o pior dos tiroteios foi registrado há cerca de três semanas, por volta de meio-dia de um domingo. Os disparos foram intensos e demorados. Mesmo assim, a aposentada não se arrepende de ter se mudado do bairro Santa Tereza, zona Leste da capital, para a Serra.

Segundo a mulher, os tiroteios se tornaram mais frequentes desde o fim de dezembro do ano passado. Foi na mesma época em que a polícia prendeu o chefe da OTA, Alexandre Hermínio Rosa, de 35 anos, o “Alex Calcinha”, e mais cinco comparsas, incluindo o primo dele, Clébio Oliveira, que comandava o tráfico na ausência do “chefe”.

A partir daí, segundo o delegado Samuel Neri, titular da 3ª Delegacia de Polícia Sul, as gangues Sacramento, Pau Comeu e Del Rey passaram a disputar territórios antes dominados pela OTA.

“Prendemos um chefe do tráfico, outros querem o lugar dele. Não vamos deixar de prender, então quem está de olho nessa posição precisa tomar muito ‘cuidado’. Se a guerra continuar, isso vai chamar a atenção da polícia, e as ações serão mais efetivas, como já está acontecendo”, avisa.

Para acabar com a violência, polícia foca na prisão dos ‘chefões’

A polícia espera reduzir a violência na disputa pelo domínio do tráfico no Aglomerado da Serra tirando de circulação os cinco principais líderes dos quatro maiores grupos criminosos que atuam na região.

Quatro “chefões” foram presos nas últimas semanas, diz o major Fabiano Rocha, comandante da Cia. 127 do 22º Batalhão de Polícia Militar, responsável pelo policiamento na Serra.

Além de Alexandre Hermínio, o “Alex Calcinha”, estão atrás das grades Rogério Pinto Guilherme, o “Rogerinho”, líder da Del Rey; Wender Wesley Ferreira, o “Peixinho”, chefe da Sacramento, e Bruno Mendes de Jesus, o “Vampeta”, um dos líderes da Pau Comeu. Agora, a missão é prender o comparsa de Vampeta, Jonathan dos Reis Rodrigues, de 25 anos, o “Jhoninha”.

DESMONTE

A estratégia policial é aplaudida pelo sociólogo e coordenador de pesquisa em segurança pública da PUC Minas, Luiz Flávio Sapori. Porém, o especialista afirma ser necessária a desmobilização das bocas de fumo.

“A presença policial deve ser ostensiva, obrigando o jovem a suspender a venda da droga nos becos e expulsando a clientela”.

Para o major Rocha, a geografia do aglomerado complica as ações na região. No entanto, os pontos de venda conhecidos não existem mais e o policiamento reforçado após a inauguração da Aisp fez com que os traficantes migrassem para outras partes da favela.

“Quando nos ausentamos de determinado lugar, por algum momento, podem ocorrer confrontos (entre traficantes). A incursão policial também pode provocar uma reação por parte dos bandidos, que podem ser os tiros que às vezes a população escuta”, diz.

Nas imediações da “Igrejinha”, duas apreensões foram feitas na última terça-feira. Primeiro, policiais detiveram dois adolescentes com 37 pedras de crack e R$ 600. À noite, militares abordaram um garoto de 13 anos com 79 buchas de maconha.