Farmácias da Savassi e da região Central de Belo Horizonte, onde há grande concentração de blocos de rua, registram aumento de até 50% nas vendas de pílula do dia seguinte durante o Carnaval. O cálculo é do Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos de Minas Gerais (Sincofarma Minas).

Além de ser um indicativo de que muitos estão abrindo mão do uso de preservativos, o dado lança um alerta para o elevado número de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) em Minas. Só em 2016, a média foi de 14 registros de sífilis por dia. 

“A venda da pílula do dia seguinte aumenta, com certeza, no Carnaval. Nas regiões onde a gente tem grande concentração de público, Savassi, Centro, chega a aumento de até 50%” (Rony Rezende, vice-presidente Sincofarma Minas)

Na tentativa de barrar o contágio de DSTs durante a festa de Momo de 2017, uma distribuição recorde de preservativos está prevista. Um milhão de camisinhas serão disponibilizadas pela Secretaria Municipal de Saúde. O número é mais que o dobro do ano passado, quando foram entregues 370 mil.

A proposta da Prefeitura de Belo Horizonte é incentivar as relações sexuais seguras. “Da mesma forma que devemos incorporar o hábito de acabar com a água parada, queremos que as pessoas incorporem o hábito do relacionamento sexual seguro e protegido, não só para garantir a saúde própria, mas também dos parceiros sexuais”, afirma o secretário municipal de Saúde, Jackson Machado Pinto.

Ele lembra que todas as pessoas sexualmente ativas, independentemente da faixa etária, fazem parte do grupo de risco. “As doenças ocorrem em qualquer idade, caso não haja proteção na relação. O número elevado de parceiros e o sexo não protegido são comportamentos que aumentam a chance de adquirir uma infecção. Aconselhamos que as pessoas procurem se proteger, usando preservativos, e evitando secreções”, reforçou.

Veja o vídeo:
 

 

Anos 1980

De acordo com Jackson Machado, as pessoas tinham mais precaução quando a aids ainda não contava com tratamentos tão efetivos como hoje, na década de 1980. “À medida que esses recursos foram ficando mais eficientes, a doença deixou de ser necessariamente uma sentença de morte, e as pessoas relaxaram um pouco. Isso, no entanto, contribuiu para que a aids e outras doenças voltassem a crescer”.

Não há estatísticas se as infecções aumentam no Carnaval, mas especialistas acreditam que o uso excessivo de álcool contribui para um maior descuido na proteção durante as relações sexuais

As declarações do secretário foram dadas ontem, durante a visita que ele fez no novo Centro de Testagem e Aconselhamento da cidade, na rua Carijós, 526, no Centro. No local, é possível fazer testes de infecções sexuais e, em caso de diagnóstico positivo, receber conselhos de psicólogos e médicos sobre os procedimentos a serem adotados.

 

Resistência ao uso do preservativo desafia autoridades

Maior acesso ao diagnóstico de DSTs na rede pública e o início da atividade sexual precocemente, com a multiplicidade de parceiros sexuais, são apontados pela Secretaria de Estado de Saúde (SES) como fatores para o aumento do número de casos de aids e sífilis em Minas Gerais nos últimos dois anos. Soma-se a esses as relações sem preservativos e o uso abusivo de álcool e drogas ilícitas.

Inclusive, a resistência ao uso de proteção preocupa as autoridades. “Dentre os motivos que podem contribuir para essa objeção estão crenças como a diminuição da sensibilidade durante o ato sexual, dificuldade em usar a camisinha e até mesmo desinteresse contribuem para o aumento das taxas de infecções nesta população”, afirma a coordenadora de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST)-Aids e Hepatites Virais da SES, Jordana Costa Lima.

Para alcançar as pessoas que ainda resistem ao uso do preservativo, a pasta faz campanhas de distribuição de camisinhas em todo o Estado. No ano passado foram entregues 30 milhões de unidades. Nos dois primeiros meses de 2017 já foram fornecidas 5,5 milhões.

 

Outros males

Apesar de serem a aids e a sífilis as mais conhecidas, outras infecções podem ser contraídas por meio de uma relação sexual desprotegida.

As hepatites também entram na lista dessas doenças. Em Minas, o número de infectados cresceu em 2015. De acordo com a SES, o aumento se deve à capacitação dos profissionais e dos serviços de referência na rede pública de saúde. Dessa forma, conforme a pasta, houve melhoria no serviço de diagnóstico.

O zika, causador de uma epidemia global no ano passado, também é outra doença sexualmente transmissível. Nesses casos, o gerente técnico do Laboratório Geraldo Lustosa, o farmacêutico bioquímico Adriano Basques, afirma que 80% das pessoas infectadas não apresentam sintomas. 

“Se você sabe que ela está com sintomas, você vai evitar contato direto com ela. Mas os outros que não dão sinais de que estão infectados acabam sendo uma porta aberta para a contaminação”, enfatiza.

Três postos temporários de saúde, que funcionarão 24 horas no período da folia, estarão abertos a partir desta sexta-feira na região Centro-Sul de BH

Basques explica que o vírus do zika pode ser transmitido por meio do fluido vaginal ou pelo sêmen. “Tanto o preservativo masculino quanto o feminino podem ajudar a evitar a transmissão das doenças”. O especialista também recomenda não compartilhar objetos como vibradores. 

“O que se sabe atualmente é que o zika fica mais tempo no esperma do que no líquido vaginal. Todos devem sempre usar preservativo. A orientação é que a mulher que vive ou viajou para áreas onde o vírus está circulando se previna, utilizando preservativos por pelo menos oito semanas. Já o homem que mora ou esteve nesses locais deve se precaver por pelo menos seis meses”, pontua Basques.

 

Carnaval em BH

Estado

O governo do Estado lançou ontem a campanha “No Bloco da Saúde só vai com camisinha”. O objetivo é alertar o folião para cuidar da própria saúde e do parceiro, destacando o uso do preservativo. Até o momento, de acordo com a coordenadora do programa de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs)/Aids e Hepatites Virais da SES-MG, Jordana Costa, já foram distribuídas 5,1 milhões de camisinhas para as regionais de saúde, organizações civis e serviços credenciados.

Jordana Costa adianta que a campanha deste ano terá um momento pós-Carnaval. A ideia é orientar as pessoas a procurarem a unidade de saúde mais próxima de onde mora para realizar testes rápidos até 30 dias após a exposição a um comportamento de risco, como a prática sexual sem o uso de proteção.

Em Minas Gerais, é possível realizar o diagnóstico para aids pelo teste rápido e outras ISTs disponíveis em todas as Unidades Básicas de Saúde ou serviços ambulatoriais conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O teste também está disponível nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA), instalados em 62 cidades. A lista das unidades pode ser acessada no saude.mg.gov.br/sexoseguro.