É só chover e ventar que alguns moradores de Belo Horizonte ficam apavorados. E o temor vai além do risco de alagamento ou deslizamento de terra. “Meu receio é ser atingida por uma árvore. Quando o tempo fecha, pego minhas coisas e vou direto para casa. Tenho horror em imaginar que posso morrer esmagada”.

O relato é da pipoqueira Eva Fiel Valério, de 62 anos, que há três trabalha na Praça Hugo Werneck, uma das mais movimentadas da metrópole. Na segunda-feira, um espécime de grande porte veio abaixo, fechando o trânsito na avenida Francisco Sales. Apesar da ocorrência, especialistas alertam que “a culpa não é das árvores”, reforçando que as supressões devem ser feitas com “muito” planejamento. 

Até outubro, mais de 9 mil exemplares deixaram de existir. As intervenções, conforme a Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura, visam a prevenir estragos principalmente na temporada de chuva.

O risco é maior na região Centro-Sul. Conforme o Corpo de Bombeiros, além de a área ser a mais arborizada da cidade, abriga as árvores mais antigas. O taxista Lenis Camilo dos Santos, de 58 anos, sabe bem disso. Ele conta que “por um triz” não foi atingido. O veículo em que estava parou em um semáforo pouco antes da queda de uma palmeira. 

“Foi Deus quem me salvou. Infelizmente, um colega de profissão não teve a mesma sorte e morreu”, lembrou o motorista. O caso citado foi em outubro de 2017, na rua Timbiras, entre a avenida João Pinheiro e rua da Bahia, no bairro de Lourdes. Hoje, Santos evita passar por várias ruas cercadas de árvores quando chove forte na cidade. 

Segundo a PBH, houve redução de queda de árvores, reflexo das podas e supressões; previsão é plantar 9 mil até março de 2020

Quem também não se sente seguro durante os temporais é o ambulante José Antônio Cândido, de 61, que há mais de duas décadas roda por BH vendendo picolé. “Fujo das árvores e corro para as marquises”.

O superintendente da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), Henrique Castilho, reforça que antes de uma árvore ser cortada, dezenas de critérios técnicos verificados. “Afinal, se suprimir sem necessidade, configura crime ambiental. Só fazemos isso com os espécimes que precisam. A prefeitura não tem o menor interesse nessa questão”.

Palavra do especialista

Algumas árvores de Belo Horizonte, devido à ação do tempo, estão em situação precária. Mas, hoje, o que vem acontecendo é o corte desenfreado, inclusive das que estão sadias. Muitas têm sido suprimidas sem estudo prévio, e isso prejudica a cidade. Quando ocorre temporal, com ventania muito forte, infelizmente, até as sadias podem cair. Isso acontece por causa da força da natureza, não sendo justificativa para tirar as árvores do município. Em vários casos, apenas as podas resolveriam o problema. Acredito que a prefeitura deveria fazer uma programação de supressão a longo prazo e, para cada árvore cortada, outra deveria ser plantada com antecedência. Porque um espécime recém-plantado não desenvolve a mesma função de outro mais velho.

Fernando Augusto de Oliveira e Silveira
Integrou o Departamento de Botânica da UFMG e hoje trabalha no de Genética, Ecologia e Evolução