Fraudes detectadas no uso do cartão de ônibus levaram a BHTrans a limitar passagens para os idosos na capital. De janeiro a setembro deste ano, 913 bilhetes eletrônicos foram utilizados indevidamente, contra 816 nos 12 meses de 2016 – aumento de 12%. O número, no entanto, pode ser maior já que as estações do Move não contam com a biometria facial, sistema que identifica quem está pagando a tarifa no embarque.

O BHBus Master, concedido a pessoas com mais de 65 anos, não tinha restrições quanto à quantidade de passagens utilizadas diariamente. Mas, está limitado a dez viagens a cada 24 horas desde o último domingo. Com o cartão, o usuário tem acesso à parte traseira dos coletivos. 

Presidente do Conselho Municipal do Idoso (CMI), Sandra de Mendonça Mallet explicou que a medida foi tomada pela BHTrans após a constatação de que estariam ocorrendo abusos. “Havia cartão sendo usado até 60 vezes por dia, mas foi identificado que não era o próprio beneficiário”.

Segundo Sandra, o Ministério Público (MP) entendeu que havia violência contra a terceira idade. “Até mesmo alguém tomando o cartão do idoso para vender as passagens, por exemplo”, disse.

Usuários que têm histórico de utilização de mais de oito passagens por dia estão sendo comunicados sobre as mudanças por meio de cartas; BHTrans informa que o sistema identifica quando há alteração no perfil do uso do benefício e, havendo inconsistência, o BHBus Master é bloqueado

Outras formas

Usuária do bilhete desde que foi criado, em 2010, Antônia Maria dos Reis, de 75 anos, gosta da possibilidade de ter acesso aos assentos da parte de trás do ônibus. Segundo ela, que faz em média cinco viagens diariamente, muitas vezes a área da frente está lotada. No entanto, Antônia Maria acredita que a restrição deveria existir apenas para quem usa irregularmente o benefício. “Se eles conseguem identificar quem está fraudando, devem punir essas pessoas apenas, porque têm idosos que realmente precisam do transporte público para trabalhar, ir ao médico”.

Ela conta que uma vez viu uma tentativa de uso errado, mas que a cobradora do coletivo impediu a ação. “Um homem alegou estar sem dinheiro e uma idosa disse que passaria o cartão para ele ‘porque não paga mesmo’. A trocadora disse que não podia”, lembra.

De mesma opinião, o aposentado Pedro Alves, de 84 anos, afirma que quem utiliza o benefício de maneira correta não pode ser punido pelos erros dos outros. “É um recurso muito necessário para a gente, é bom que se tenha essa fiscalização. Só acho que deveria acontecer dentro do ônibus, com algum policial ou agente da BHTrans”, sugere.

220 mil pessoas acima de 65 anos estão cadastradas como beneficiárias do cartão BHBus Master

Porta da frente

Em nota, a BHTrans afirma que, atingido o limite de dez viagens diárias no cartão, o idoso continua tendo acesso à viagem gratuita, mas apenas na parte da frente do ônibus. Os casos em que a pessoa embarca na porta dianteira e precisa descer pela traseira, como acontece nas plataformas do Move, estão sendo analisados.

A autarquia informou, ainda, que os idosos que precisarem de mais viagens poderão ter o acréscimo, desde que comprovada a necessidade. Por meio da assessoria de imprensa, o MP disse que as novas regras protegem a integridade do idoso, uma vez que ele possa estar sofrendo violência para ceder o cartão para o uso indevido.

Por meio da assessoria, o MP informou que, sem data definida, será incluído um aditivo sobre a limitação das passagens ao Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que trata sobre o uso do cartão BHBus pelos idosos, assinado em 2009

BHBus idoso
Catraca nas estações do Move não têm biometria facial, que reconhece quem está usando o bilhete

Utilização irregular pesa no bolso do usuário que paga tarifa

A quantidade de viagens indevidas utilizando o cartão BHBus Master e o prejuízo financeiro do desvio não foram informados pela BHTrans ou pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belo Horizonte (SetraBH). Por outro lado, há custos para o usuário que paga pela tarifa, conforme reunião do Conselho Municipal do Idoso (CMI), realizada em 14 de setembro. Luiz Cláudio Rocha, representante da Transfácil, responsável por operar o sistema de bilhetagem e comercializar os créditos eletrônicos, disse que o combate à utilização irregular do benefício pode ajudar na melhoria de preço das passagens do transporte coletivo.

Bloqueio

De acordo com a BHTrans, nos leitores instalados dentro dos ônibus existem câmeras que permitem “verificar se quem está utilizando o cartão é mesmo o beneficiário”. Com o recurso, que aparece nos equipamentos mais modernos instalados neste ano, é possível identificar o problema e bloquear o bilhete.No entanto, segundo o especialista em engenharia de transporte e trânsito e professor da Universidade Fumec, Márcio Aguiar, só a modernização não é suficiente. “A tecnologia não é capaz de acompanhar o fluxo de passageiros, e esse sistema de escaneamento facial não bloqueia imediatamente a entrada de quem frauda o sistema”.

Nas estações do Move, a câmera do leitor é utilizada apenas para que idosos que não possuem o cartão possam mostrar a identidade e atestar a idade. O processo é feito pelo funcionário que fica na catraca. 

“Nós não conseguimos fiscalizar. Seria impossível parar cada pessoa e verificar se realmente só os beneficiários estão usando o cartão”, comentou um dos trabalhadores de uma das plataformas percorridas pelo Hoje em Dia. No caso de investigações de irregularidade, outras câmeras do espaço podem ser utilizadas.

Mais rigor

Para Márcio Aguiar, a fiscalização aleatória dentro dos ônibus e estações, além da aplicação de multas, seria melhor e mais eficiente. “Mas é preciso aumentar o número de funcionários. Só o trocador e o motorista não conseguem evitar isso”, finaliza. De acordo com o Setra, o controle continuará sendo exclusivamente eletrônica. Nenhum tipo de abordagem durante as viagens foi pensado pela empresa.

(Com Renata Galdino)

BHBus idoso
Ainda é avaliado o que será feito com o usuário que entra pela porta dianteira e precisa descer pela traseira