Além do armamento de guerra, rádios comunicadores, coletes à prova de bala e dezenas de carros, os autores do ataque registrado na madrugada de quinta-feira (27) que apavorou a população de Uberaba, no Triângulo Mineiro, podem ter utilizado até mesmo um avião para fugirem da cidade. Em entrevista coletiva na tarde desta sexta-feira (28), o delegado Gustavo Anai, responsável pela investigação, disse não descartar a possibilidade de que pistas clandestinas da região tenham sido usadas para a fuga usando uma aeronave. 

Questionado sobre a possibilidade de o restante do bando, entre 10 e 15 homens, ter conseguido fugir usando um helicóptero enquanto a Polícia Militar (PM) negociava com os dez suspeitos que mantinham reféns e acabaram presos, na zona rural do município, o policial descartou o uso desse tipo de veículo. 

"Helicóptero não, pois havia inúmeras viaturas no entorno e, salvo engano, até o helicóptero da PM já estava na cidade logo que amanheceu. Por isso, não acredito que daria tempo de um helicóptero pousar aqui sem vermos. Mas outra aeronave, um avião, pode ser. Estamos trabalhando junto com as inteligências da PM, PC e Polícia Federal (PF) para levantar essas informações", garantiu Anai. 

O chefe do Departamento de PC em Uberaba, delegado Francisco Gouvea Motta, confirmou a existência de uma pista clandestina próximo ao local onde os dez suspeitos foram presos. "Temos vários fazendeiros, usinas que possuem pistas de pouso por questões de aviões agrícolas. Infelizmente estas estruturas são usadas também por traficantes", precisou. 

Ainda de acordo com o delegado Gustavo Anai, durante a madrugada testemunhas e os presos prestaram depoimento, sendo que os suspeitos permaneceram em silêncio. "Eles estavam acompanhados de seus advogados, que vieram de outras cidades logo que eles se entregaram. Mas, apesar de não termos colhido muitas informações, foi possível ratificar a prisão dos dez. Eles foram encaminhados para a penitenciária local e hoje (sexta) já notificamos o poder judiciário", completou. 

Procurado pela reportagem, o Banco do Brasil informou que não divulga valores subtraídos durante ataques criminosos à suas dependências. "No caso de Uberaba, os valores ainda estão sendo apurados", concluiu a empresa, dando a entender que alguma quantia foi levada pela quadrilha. 

R$ 2,5 milhões em dinheiro apreendidos em SP 

A polícia ainda investiga a conexão do assalto com a prisão de um homem de 34 anos que transportava um total de R$ 2,5 milhões em dinheiro de origem suspeita, ocorrida na manhã desta sexta na rodovia Régis Bittencourt, na altura de Registro, em São Paulo, cidade a mais de 600 km de Uberaba.

Apesar de até o momento a corporação não ter sido informada pelo Banco do Brasil, que foi atacado, sobre a quantia de dinheiro levada pelos assaltantes, a PC também não descarta a possibilidade de haver ligação entre as ocorrências, já que a maior parte dos presos é de Campinas (SP). 

"Nada pode ser descartado, tudo é possível, ainda mais logo após o roubo. Mas a PRF está fazendo os levantamentos para poder chegar a uma conclusão final sobre isso. Estamos aguardando para ver se devemos investigar essa possibilidade", disse Anai. "Com o passar das horas, maior fica a nossa abrangência investigativa. O raio vai aumentando, por exemplo, se confirmamos que eles fugiram com aeronave. A mesma coisa com relação a essa notícia dos R$ 2,5 milhões apreendidos. Nós vamos averiguar, fazer uma análise de vínculo criminal, pra saber se bate ou não. Se confirmar, a gente precisa mudar o foco da investigação",  completou o delegado. 

PC esclarece informações que circulam na internet

Os policiais esclareceram ainda sobre informações que estão correndo pelas redes sociais sobre o crime e que ainda não têm qualquer confirmação da polícia, como notícias sobre uma casa nas proximidades da agência explodida que poderia ter sido usada para abrigar o bando. "Na verdade nós estamo apurando se alguém ficou lá por ser um imóvel próximo do alvo da quadrilha. Mas seria para colher informações, alguém pode ter ficado para observação, uma espécie de olheiro", garantiu Anai. 

Ainda segundo ele, outra informação que vem circulando na web é sobre o "deputado amigo" que é citado por um dos presos durante a negociação com a PM para a libertação de sete pessoas que foram feitas de reféns. "Nos depoimentos nós fizemos várias perguntas, inclusive sobre isso, mas eles permaneceram calados. Já estão espalhando até o nome de um parlamentar, mas nós não temos nada de concreto. Pode se tratar até de um jargão usado por eles", argumentou o delegado. 

Relação com o assalto da Rodoban em 2017

Os delegados também foram indagados durante a coletiva se os autores presos nesta quinta-feira podem ter relação com o assalto cinematográfico ocorrido em Uberaba há dois anos atrás, quando bandidos invadiram a empresa de transporte de valores Rodoban. Segundo a PC, não é possível traçar qualquer relação até o momento, pois as estruturas destas quadrilhas mudam muito com o tempo. 

"O que sabemos é que aquele crime foi cometido por um bando de São Paulo. O que acontece é que existe uma diversificação nesse tipo de crime, temos que tratar quase como uma empresa. Tem a chefia, a parte da diretoria, que elabora o crime, e o pessoal da execução em si. Estes últimos não são sempre os mesmos, eles são pinçados em decorrência da 'qualificação' de cada um", explicou o delegado Francisco Gouvea. 

Ainda conforme ele, esta "qualificação" foi observada nos dez integrantes da quadrilha que já foram presos. "São todos na faixa de 30 a 40 anos, pessoas de altíssima periculosidade, todos com passagens por roubo, homicídio, latrocínio. São pessoas com uma qualificação criminosa muito grande", finalizou o chefe da PC de Uberaba.

 

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