Em depoimento à CPI de Brumadinho, em Brasília, nesta terça-feira (18), Fernando Henrique Barbosa, que trabalha há 18 anos na Vale, contou que, sete meses antes do rompimento da barragem, seu pai, com mais de 40 anos de serviços em mina, foi chamado às pressas, quase de madrugada, para ajudar a engenheira geotécnica Cristina Malheiros a corrigir problemas estruturais na barragem. O pai dele, Olavo Coelho, foi soterrado pela lama de rejeitos de minério de ferro, em 25 de janeiro.

"Começou a brotar lama na grama da barragem, no talude. Não foi pouca, não. Foi muita. Do centro para a ombreira esquerda. Se vazou, era porque, por dentro, já estava tudo comido", disse Fernando Barbosa.

Cristina Malheiros teria mandado corrigir essa corrosão da barragem com areia, brita e manta geotêxtil. Olavo comentou com os filhos que a solução era insuficiente e que a barragem estava definitivamente condenada. Segundo Fernando Barbosa, a partir daí a Vale intensificou as simulações de emergência com a comunidade do Córrego do Feijão, mas não removeu o refeitório nem a parte administrativa, onde morreu a maior parte das vítimas.

"Foi a Cristina Malheiros que deu o treinamento. Ela mostrou para nós o mapa certinho de onde a lama iria passar. E ela falou: 'se estourar agora, aqui não sobra nenhum'. Por que não mudou o pessoal lá para cima, em Jangada, sendo que lá já tinha escritório e tudo?”, questionou ele. E completou: “Não sei porque ainda não prenderam essa Cristina. Por que ela não comunicou isso e isolou o pessoal do Córrego do Feijão?”.

Fernando Barbosa passou à CPI os nomes de outros funcionários que trabalharam com o pai dele na tentativa de corrigir a corrosão da barragem e sugeriu à CPI uma acareação entre eles e Cristina Malheiros.

A engenheira chegou a ser presa provisoriamente em fevereiro. Ela depôs à CPI em maio, disse que vistoriou a barragem dois dias antes do rompimento e negou a existência de sinais iminentes de desastre.

Para o presidente da CPI, deputado Júlio Delgado (PSB-MG), não será preciso fazer acareação entre os funcionários porque a situação de Cristina Malheiros já está definida. Falta apenas provar a corresponsabilidade de gerentes e diretores da Vale.

"Aqui, a gente já chegou à conclusão de que a Cristina está enrolada até o fundo do poço e vai ser presa de novo. Só que a Vale está querendo jogar a bucha só para cima dela. Ela vai ser indiciada. O problema é que ela não é responsável sozinha", disse.

"Milagre"

Marco Antônio da Silva, funcionário da Vale

Marco Antônio diz que se salvou "por milagre"

A CPI de Brumadinho também ouviu Elias Nunes e Marco Antônio da Silva, funcionários da Vale que sobreviveram à tragédia. Eles criticaram os treinamentos e simulações de emergência. Marco disse que se salvou “por milagre”, ao correr para o lado oposto ao indicado nos treinamentos.

"Para todas as pessoas que estavam lá, a barragem era segura. No dia, não houve acionamento da sirene e, por isso, eu fiquei em dúvida se era mesmo a barragem, porque eu estava esperando o barulho da sirene, por causa do treinamento. E quanto à questão de correr para a parte que era segura, como a gente foi treinado: os que correram para essa parte, muitos morreram e poucos sobreviveram. Eu corri para baixo, para o lado errado: o lado errado meu, mas o lado certo de Deus, e assim eu consegui".

Próximos passos

Os deputados aprovaram requerimento para ter acesso aos sigilos bancário e telefônico de Makoto Namba, engenheiro da empresa alemã Tüv Süd que assinou o laudo de estabilidade da barragem que se rompeu em janeiro.

A CPI também vai fazer uma diligência a Congonhas (MG), a fim de avaliar a situação da barragem Casa de Pedra, ameaçada de rompimento.

A Vale foi procurada para comentar sobre as declarações dos funcionários, mas até a publicação desta matéria não havia se manifestado.

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