SANTO ANTÔNIO DO MONTE – Apesar das constantes fiscalizações do Exército, fábricas de fogos de artifício em Santo Antônio do Monte, no Centro-Oeste mineiro, conseguem driblar as vistorias, evidenciando a fragilidade do processo.

Funcionários das empresas apontam que o material é armazenado de forma e em quantidade irregular, e que as normas de segurança não são tão rígidas entre uma fiscalização e outra. As falhas podem justificar a expansão do número de vítimas nos últimos anos. De 2011 até agora já foram registradas 12 mortes.

“São caixas e caixas de explosivo num mesmo galpão. Muito mais do que é permitido”, revelou um funcionário da Fogos Globo, que não quis se identificar temendo ficar sem o emprego. Como mostrou nessa quarta-feira (16) o Hoje em Dia, há 79 fábricas legalizadas em Santo Antônio do Monte. São cerca de 15 mil empregos diretos e indiretos e 70% da mão de obra vem da própria cidade. Ou seja, medo e necessidade andam juntos.

Na Fogos Globo, na última terça-feira, uma explosão matou quatro mulheres e deixou outra ferida. O funcionário se diz assustado com a possibilidade de novos acidentes, mas afirma depender da fonte de renda, assim como parentes e amigos.

“Sempre quando ia o pessoal do Exército, tudo era organizado direitinho”, conta Patrícia Alves, de 24 anos, namorada do único sobrevivente da explosão na Fogos Globo. “Assim, a gente escondia as coisas erradas. Até colher, que não podia ficar no galpão, a gente tirava. Depois dessa tragédia, não quero mais me arriscar”, afirmou a jovem, que já planeja voltar a morar com a mãe em Dores do Indaiá, também no Centro-Oeste mineiro, após deixar o emprego em outra fábrica da cidade.

“Todo mundo sabe que na hora da fiscalização tudo fica ótimo, mas depois as coisas vão ficando desorganizadas. Até o próprio empregado contribui para isso e ninguém faz nada”, explicou Cícero da Silva, de 51 anos, que também trabalha em uma fábrica de fogos e é primo de uma das mulheres que morreu na explosão de terça-feira.

DENÚNCIAS

Em 2011, foram registradas duas mortes em fábricas de fogos de artifício de Santo Antônio do Monte e região. Em 2012, o número subiu para três, mesma quantidade registrada em 2013. Nos últimos 15 anos, 96 pessoas ficaram feridas.

“Recebemos muitas denúncias de trabalhadores que falam sobre as irregularidades, mas que têm medo de serem demitidos”, explicou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Fogos (Sindifogos), Antônio Camargos dos Santos.

O sindicato tenta, junto ao Ministério Público, atuar dentro das empresas como forma de detectar eventuais problemas. “Isso seria muito importante para garantir que as normas sejam, de fato, cumpridas”.

Representantes do Sindifogos já se mobilizam para realizar, na semana que vem, um protesto contra a falta de segurança nas fábricas.

OUTRO LADO

O Sindicato das Indústrias de Explosivos do Estado de Minas Gerais (Sindiemg) informou desconhecer os relatos de irregularidades na segurança.

“Sobre acúmulo de explosivos eu desconheço e seria leviano falar sobre isso. A orientação que passamos para todos é que as regras sejam seguidas. Somos regidos por uma legislação federal e fiscalizados pelo Exército, cujo trabalho é bem feito”, justifica o coordenador do Sindiemg, Américo Libério da Silva.

Situação regular

Em nota, o Exército informou que a fábrica onde ocorreu a explosão na terça-feira foi fiscalizada no em 26 de março deste ano e que estava regular. Explicou, ainda, que a indústria é registrada e controlada pelo Serviço de Fiscalização de Produtos Controlados da 4ª Região Militar, com sede em Belo Horizonte.

SAIBA MAIS

O sobrevivente da explosão na empresa Fogos Globo, Elenílton Gonçalves, de 19 anos, prestou depoimento nessa quarta-feira (16) acompanhado por um representante do Exército, que também investiga as causas do acidente. “Ele confirmou que o fogo começou na área de trabalho em que ele estava, mas ainda não dá para determinar ao certo o que provocou a chama”, contou o delegado Lucélio Silva.

O laudo da perícia deve sair em até 30 dias.

Os corpos de Maria das Graças Gonçalves Siqueira, de 42 anos, e Marli Lúcia da Conceição, de 41, que morreram na explosão, foram sepultados nessa quarta-feira na cidade. O sepultamento de Maria José da Soledade Campos, de 27 anos, estava previsto para ocorrer em Alagoas, e o de Daiana Cristina Maciel, de 27 anos, em Virginópolis, interior de Minas.