Os furtos de celulares ultrapassaram os roubos de aparelhos em Belo Horizonte. De janeiro a outubro de 2018, foram mais de 15 mil crimes, aumento de 16%. Essa é a primeira vez que a mudança ocorre na série histórica dos últimos seis anos. Os dados são da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp). 

Dentre as explicações, mais policiais nas ruas, obrigando ladrões a mudar as estratégias. O comportamento das vítimas também foi modificado, alertam especialistas. Ao mesmo tempo em que as pessoas têm se preocupado mais em registrar as queixas, estudiosos afirmam que muitas dão brechas para a bandidagem. Assim, à espreita, os bandidos se aproveitam da distração para atacar.

As condutas refletem nas estatísticas das cidades do interior. Em Minas, conforme o levantamento da Sesp, também houve mais furtos que roubos de telefones.  Apesar de ter registrado o boletim de ocorrência, o ajudante de carga e descarga Francisco Barbosa, de 49 anos, não sabe até hoje quem levou o celular dele. 

“Estava fazendo uma entrega, no Centro (de BH), e deixei ele dentro do caminhão, na bolsa. Alguém quebrou a porta e levou o aparelho e a bolsa junto. Só fui ver depois”, conta. O maior desafio no combate ao delito, segundo as forças de segurança, é a difícil investigação. “Não é fácil produzir provas de que um furto aconteceu e de que determinado suspeito o cometeu. E as vítimas se descuidam em ambientes propícios, como em centros comerciais e vias movimentadas”, frisa o delegado Matheus Cobucci, coordenador de Operação da Superintendência de Investigação e Polícia Judiciária da Polícia Civil.

Sensação de segurança

Na opinião do professor Robson Sávio, pesquisador do Núcleo de Violência da PUC Minas, a sensação de segurança trazida pelo policiamento reforçado nas ruas pode, inclusive, deixar as pessoas menos alerta. “Isso é um acerto das bases móveis. A percepção de ter mais proteção acontece à medida que mais policiais são vistos tanto por assaltantes quanto pela população. Inibe a prática do roubo, que é mais violento. Mas isso tem dupla face: quem se sente mais seguro fica menos atento e abre caminho para o furto”, ressaltou.

Que o diga a operadora de telemarketing Júlia Diniz, de 26 anos. Ela tomava um café, em fevereiro do ano passado, na Praça 7, no Centro de BH, quando teve o telefone furtado. “Aconteceu em um momento de descuido. Depois disso, passei a ficar mais atenta”, afirmou. Antes, a mulher já havia tido dois aparelhos roubados à mão armada.

Especialistas defendem reforço no combate à receptação

O combate aos furtos e roubos precisa passar pelo enfrentamento a outro crime: a receptação. Para especialistas, essa é a estratégia para que os assaltos deixem de ser atrativos. Em Belo Horizonte, em um universo de mais de 28 mil telefones levados pelos ladrões, de janeiro a outubro de 2018, a PM garante ter recuperado 14 mil.

Chefe da Sala de Imprensa da corporação, a capitão Danúbia Lopes diz que as apreensões foram realizadas durante operações contra receptação. “Foram diversas ações em lojas suspeitas de vender produtos de furtos e roubos. A população não deve comprar e pode denunciar locais suspeitos”, afirmou.

A criação da Central de Bloqueios de Celulares (Cbloc), em julho do ano passado, foi uma resposta a essa demanda, diz o delegado Matheus Cobucci, da Polícia Civil. “As informações coletadas são usadas na estratégia para inibir furto, roubo e receptação”. É o que aposta Shirley Martins, de 43 anos, dona de uma loja de celulares no Barro Preto, região Centro-Sul de da capital. Ela levou uma tarde inteira para registrar o furto de um telefone.

“Notei que um rapaz trocou o celular enquanto a vendedora se virou para pegar outro no mostruário. Mesmo sendo só um aparelho, fiz o boletim”.
Roubada em 2016, enquanto esperava o ônibus, a psicóloga Arani Ribeiro de Lacerda, de 35 anos, acredita ser válida a ideia de inutilizar o aparelho por meio da central de bloqueio.

Quando foi alvo de criminosos, o serviço ainda não existia. “Mas, na época, cancelei o chip. Já ouvi falar do site novo. É mais fácil, porque bloqueamos direto na polícia”.

Melhorias

Em média, segundo a Sesp, o Cbloc faz o bloqueio de cerca de 50 aparelhos p[/TEXTO]or semana. Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Marcos Rolim Porto Alegre aprova a iniciativa, mas diz que precisa ser mais difundida. “Assim como passaram anos pedindo que as pessoas registrassem ocorrências, as polícias precisam agora fazer uma ação forte de comunicação. O bloqueio pode facilitar o trabalho contra a receptação, que é falho”, analisou.

Segundo a PM e a Polícia Civil, campanhas para informar sobre a Cbloc são realizadas. Os registros no site (cbloc.seguranca.mg.gov.br) possibilitam confirmar que celulares apreendidos são frutos de crimes.

Além disso

A Guarda Municipal de BH informou realizar operações específicas em pontos considerados mais vulneráveis, como estações do Move, o viaduto da estação do metrô Lagoinha e as ruas e avenidas do entorno das praças da Rodoviária e da Estação, na região Central da cidade. Para evitar ser alvo de furtos, o órgão orienta evitar o uso do aparelho em vias públicas e deixar para fazer consultas desnecessárias a aplicativos em ambientes mais seguros. A mesma recomendação é reforçada pela Polícia Militar. “Aquela conversa no WhatsApp pode esperar”, ressalta a capitã Danúbia Lopes.
 

Furtos de celulares aumentam 16% em BH