Pelo menos R$ 8 milhões são gastos, a cada ano, com a limpeza de pontos críticos de depósito clandestino de lixo em Belo Horizonte. O valor retirado dos cofres públicos seria suficiente para reformar 48 centros de saúde ou construir duas Unidades Municipais de Educação Infantil (Umeis).

A ação dos sujões desafia as autoridades e impede o uso do recurso para outros investimentos, além de contribuir para a degradação do meio ambiente e a proliferação de doenças, como a dengue e a leptospirose. Em 2018, mais de 113 mil toneladas de entulho foram recolhidas, o suficiente para abarrotar 16 caminhões de lixo.  último levantamento feito pela Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) identificou 731 bota-fora na capital.

Um novo estudo trará o número atualizado de locais de descarte incorreto de resíduos nas nove regionais da metrópole. Os principais espaços são áreas desocupadas, esquinas pouco movimentadas e até córregos. O mapeamento, que está sendo finalizado, deve mostrar uma redução de até 15%, adiantou o órgão.

Na capital, as denúncias de deposição clandestina de lixo podem ser feitas pelo telefone 156, no site pbh.gov.br ou aplicativo PBH APP

Elevado

O gasto com os atuais pontos críticos é alto, afirma o chefe do Departamento de Serviço de Limpeza da SLU, Pedro Assis Neto. Ele diz que o valor só é desembolsado devido à falta de educação da população. “É um dinheiro que não faz parte da taxa de coleta de lixo, que é cobrada anualmente. É uma verba do orçamento da prefeitura, que poderia ser investida em outras funções na cidade”, afirmou.

Segundo o gestor, o controle dos bota-fora é complicado. Dois motivos são apontados como os principais: a periodicidade do descarte, que é de difícil monitoramento e, às vezes, a própria ação de recolhimento, que pode provocar o contrário do que se deseja. “O trabalho da Superintendência é fazer a limpeza imediata do local, porque mesmo sendo irregular, o lixo não pode ficar ali. Mas, à medida que retiramos, as pessoas passam a entender que é um local de descarte, pois a prefeitura está tirando o material”, avalia Pedro Neto. 

A situação foi confirmada com um gari que fazia o serviço em um lixão a céu aberto na avenida Santa Terezinha, no bairro Alto Vera Cruz, região Leste. “A gente vai limpar tudo até o fim do dia (última terça-feira). Na segunda-feira, já vai estar igual ou pior”, disse o funcionário. Lá, além de lixo doméstico, foi possível encontrar restos da construção civil e até um sofá. 

Na mesma região, a equipe de reportagem do Hoje em Dia flagrou um homem depositando entulhos no passeio da rua Senhor Simeone, que tinha acabado de ser limpo. Funcionária de um sacolão vizinho ao bota-fora, que pediu para não ser identificada, diz que a situação é rotineira. “Se ficar aqui o dia todo, vai ver essa cena toda hora”.

BOTAFORA

Homem joga entulho em trecho próximo ao Anel Rodoviário, no bairro São José, região Noroeste

Mais flagrante

Em outro ponto, na região Noroeste, no bairro São José, às margens do Anel Rodoviário, a falta de educação também foi notada. Um carroceiro foi visto jogando sacolas e outros objetos em um canteiro. Dono de uma academia em frente ao local há quase duas décadas, Ricardo Antônio da Silva, de 58, contou que o problema aumentou nos últimos anos. “Sempre teve, mas agora está pior. É ruim porque fica infestado de mosquitos, baratas”, reclamou.

Ao ser flagrado por fiscais depositando lixo em local proibido, o sujão pode ser multado pela prefeitura. As autuações variam de R$ 192 a R$ 5,7 mil na metrópole, conforme o local onde o entulho foi despejado

Multas

No primeiro semestre deste ano, a Prefeitura de BH aplicou 2.250 multas por descarte irregular de lixo. O valor da infração varia de R$ 192 – por não acondicionar o resíduo corretamente ou fora do horário de recolhimento – a R$ 5,7 mil, por despejar restos da construção civil em lotes vagos ou encostas. 

Segundo a subsecretaria de Fiscalização da PBH, a autuação é aplicada após vistorias. Caso algum infrator ou o dono do terreno seja identificado, uma notificação é enviada ordenando a limpeza. Se nada for feito, a penalidade é aplicada.

Entretanto, para o professor Marcus Vinícius Polignano, a multa não consegue resolver a situação. “É uma ação punitiva, mas a prefeitura também precisa trabalhar de forma estratégica, voltada para educação ambiental e conscientização da população, carroceiros e de empresas de caçambas”, disse.

Mestre em Meio Ambiente, a professora das Faculdades Promove Kandice Vieira Assis acredita que a discussão deve ser feita nas escolas, com as crianças. “Mas também considero importante que isso chegue aos ônibus, ao metrô. Muitas vezes, o indivíduo tem a consciência de que descartar na rua é errado, mas não sabe para onde pode levar o seu resíduo”, disse a docente.

113 mil toneladasde entulho foram retiradas de pontos clandestinos de BH em 2018; montante é capaz de encher 16 caminhões

A SLU informou que campanhas educativas são feitas nas instituições de ensino da cidade e com a ajuda de associações de moradores. Placas educativas são usadas para conscientizar os moradores. O Executivo ressaltou que denúncias de deposição clandestina de lixo podem ser feitas pelo telefone 156, site da administração pública e aplicativo PBH APP.