A versão digitalizada do processo judicial dos inconfidentes, baseada na edição impressa dos 11 volumes dos Autos da Devassa, editada pela Imprensa Oficial de Minas Gerais nas décadas de 70 e 80, vai ser lançada nesta sexta (17), no Largo do Ó, às 17h30, na cidade de Tiradentes. Detalhes de um marco da história mineira poderá ser lido e consultado por pessoas de qualquer parte do mundo no Portal da Inconfidência.

Lá, será disponibilizado ao público a íntegra dos Autos da Devassa, as fases do processo judicial movido pela Coroa Portuguesa contra os inconfidentes. Pontos relevantes como as acusações de crime de traição e as sentenças dos réus da Conjuração Mineira são descritos com riqueza de detalhes nos documentos históricos. A transposição da plataforma impressa para a digital representa um grande avanço no sentido de democratizar o acesso às informações contidas nos documentos, que totalizam cerca de 5.500 páginas.

A acusação
Um dos destaques da plataforma virtual é o seu avançado sistema de pesquisa. As buscas podem ser feitas por qualquer palavra e é possível ver todas as páginas em que o termo pesquisado é citado. Por exemplo, ao digitar o nome Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), surge a indicação de quantas vezes e em quais páginas de cada volume o termo aparece, o que até então era impossível sem a verificação de página por página.

A iniciativa se torna ainda mais relevante ao considerar que os 11 volumes dos Autos da Devassa, em edições comentadas, estão esgotados, com poucos exemplares distribuídos pelas bibliotecas do país, o que dificultava a consulta. Além disso, os manuscritos originais se encontram na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.
“Democratizando informações históricas, a Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais tem plena convicção de estar cumprindo sua missão institucional de fomento e apoio à cultura”, enfatiza Eugênio Ferraz.

A captura
Referência para estudiosos, o site também permite visualizar e comparar, lado a lado, a versão digitalizada, com correções e ajustes, e a original dos volumes publicados pela Imprensa Oficial. Essa nova maneira de percorrer parte da história da Inconfidência Mineira vem ao encontro do anseio de historiadores e da comunidade acadêmica do mundo inteiro.

“A Devassa da Inconfidência está repleta de história ainda não de todo decifrada e revelada. Novos estudos e pesquisas sempre o demonstram. É por isso que a digitalização dos Autos, ao democratizar e facilitar a leitura dos documentos preciosos da conjuração de 1789, constitui uma realização de máxima importância”, declara o secretário de Estado de Cultura , Angelo Oswaldo de Araújo Santos.

Curiosidades
A riqueza de detalhes presente nos Autos da Devassa impressiona. Durante o processo judicial, Tiradentes chegou a ter sua estatura contestada. Em algumas passagens dos 11 volumes impressos, é citado que Tiradentes defendeu a democracia eletiva com um século de precedência em pleno monarquismo e pregou a abolição da escravatura, precedendo assim a todo o restante da América.

Tiradentes, que foi capturado com um bacamarte em mãos, por duas vezes solicitou viajar para Portugal com a intenção de tratar de negócios. Em sua sentença, chama a atenção o fato de o juiz ordenar que sua casa fosse salgada para que sua memória infame fosse apagada. Aliás, as penas dos inconfidentes foram variadas, indo desde o açoite à morte natural na forca, como no caso do mártir.

Além de apresentar com pormenores os fatos relacionados ao julgamento dos inconfidentes, os Autos da Devassa também revelam os costumes da época. Ao descrever os bens apreendidos dos réus, a obra evidencia, por exemplo, quais eram as vestimentas e os utensílios de cozinha usados naquela época.

Entre essas, muitas outras curiosidades estão presentes e a espera de serem descobertos nos documentos. Muitas delas, sem dúvida, com potencial valor histórico. E a quem possa interessar, os custos dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira foram de 555$288, quinhentos e cinquenta e cinco mil, duzentos e oitenta e oito réis.