Um movimento encabeçado por pediatras, psiquiatras e neurologistas de Minas Gerais pede o retorno das aulas presenciais em escolas de Belo Horizonte e demais cidades do estado. O manifesto (confira abaixo o texto na íntegra), que foi divulgado nas redes sociais, faz um apelo para a retomada consciente das unidades de educação, visto que, segundo os especialistas, as crianças não são as principais transmissoras do vírus da Covid-19.

Além disso, os quase dez meses em casa podem trazer danos mentais, sociais e físicos, sendo a escola de fundamental importância para o desenvolvimento da socialização e independência das crianças.

É o que relata uma das representantes do grupo, a pediatra Carolina Capuruço. “Sabemos que esse prolongamento pode causar danos seríssimos e todas as alterações podem ocorrer de forma definitiva. Eu já atendi, facilmente, mais de 100 crianças com crise de ansiedade grave, além de vários casos de obesidade, anorexia e agressão. Por isso nós temos que tentar abrir de forma segura, temos que priorizar a educação”, disse.

O baixo número de casos e a baixa taxa de transmissão pelos pacientes com idades até 10 anos também é tratada como um dos motivos para o pedido. “No início, nós achávamos que eles fossem os grandes transmissores da Covid-19, como as crianças são de várias outras doenças. Entretanto, ao longo desse período de pandemia, observamos que elas são muito menos acometidas, sobretudo em formas graves. Descobrimos que a carga viral, e até a taxa de transmissão, é muito mais baixa do que nos adultos ou idosos. Quanto menor a idade, menor a carga viral e menor a transmissão”, afirmou.

Desde março as escolas mineiras estão com aulas presenciais suspensas, sem prazo definido para a volta. Por isso, o grupo pede que o retorno seja uma prioridade quando houver uma diminuição do número de casos. “Sabemos que algumas escolas precisam ter uma reformulação, mas muitas têm condições de voltar. Estamos aqui trazendo dados científicos para que os governantes e a população priorizem algo tão importante. Nós sabemos do momento que estamos vivendo, não somos irresponsáveis, queremos que esse pico abaixe e haja prioridade na estruturação das escolas. Que essa volta seja facultativa, respeitando as famílias que não querem e não podem mandar a criança. Queremos que haja oportunidade para aquelas que podem, precisam e querem retornar, e que esse retorno seja seguro”, finalizou a médica.

Em nota, a Secretaria de Estado de Educação (SEE/MG) esclareceu que a decisão sobre a abertura de quaisquer escolas da educação básica é de responsabilidade e autonomia de cada prefeitura, e que o Estado autorizou a retomada das atividades presenciais nas instituições de ensino, a partir de outubro, nos municípios que estão localizados na onda verde, conforme as deliberações do Plano Minas Consciente, ficando a cargo dos municípios a sua liberação. 

Procurada, a Prefeitura de Belo Horizonte disse que as aulas não movimentam apenas crianças, mas 22 mil professores, 180 mil pais e responsáveis, 9.400 colaboradores terceirizados, 2.600 prestadores de serviços, além de mais de 10 mil alunos de EJA, que concentram sua faixa etária em mais de 40 anos. Por isso, não recomenda a circulação de 250 mil adultos até que a taxa de transmissão do vírus baixe dos mais de 80 casos por 100 mil habitantes atuais, para pelo menos 20.

A reportagem entrou em contato e aguarda um posicionamento do Conselho Regional de Medicina e da Sociedade Mineira de Pediatria. 

Infectologista pede cautela

Embora reconheça os danos e a dificuldade em manter as crianças em casa, o infectologista e membro do Comitê de Combate à Covid-19 em Belo Horizonte, Estevão Urbano, avalia com cautela o pedido feito e acredita que é preciso um planejamento eficiente para que se prepare uma volta segura no ano que vem. “Estamos cientes da carta e nossa posição é de respeito, nós entendemos e concordamos com os pontos apresentados. Sabemos das dificuldades, mas achamos que ainda não é o momento de voltar. É melhor planejar e preparar para uma volta segura no ano que vem”, disse.

Mesmo apresentando menos de 3% dos casos confirmados no estado, crianças de 0 a 10 anos também estão sujeitas a agravamento da doença. Em situações já confirmadas pelo boletim epidemiológico de Minas, por exemplo, 101 casos foram notificados por suspeita de uma doença grave, que acomete crianças, chamada síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), associada à Covid-19.

Também por isso, a retomada só será possível quando os dados gerais indicarem uma melhora real no número de casos. “Estamos seguindo uma métrica que diz que precisamos ter menos de 20 casos novos, a cada 14 dias, para cada 100 mil habitantes. E embora a gente saiba que, provavelmente as escolas são menos problemáticas do que imaginávamos, elas estão longe de serem isentas de risco. Já tratei alguns casos graves de crianças com a síndrome em decorrência da Covid-19, assim como atendi avôs que adoeceram porque a criança transmitiu. Então será que justifica voltarmos agora? A vacina já está chegando”, concluiu.

Confira o que diz a carta na íntegra:

Nós, MÉDICOS MINEIROS, pediatras, psiquiatras, neurologistas e de diversas outras especialidades, vimos apresentar nosso embasamento técnico e científico a respeito da volta às aulas de forma segura, facultativa e híbrida. Respeitando aqueles que não podem ou não querem retornar nesse momento, bem como aqueles que podem, querem e precisam retornar às aulas.

Art. 205 da Constituição Federal: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”

As escolas SÃO SERVIÇOS ESSENCIAIS E DEVEM SER TRATADAS COMO TAIS. As crianças e adolescentes são o futuro de uma população e foram CRUELMENTE ESQUECIDAS PELOS GOVERNANTES E PELA SOCIEDADE. São o público que mais tem sofrido as consequências do isolamento prolongado e os que menos têm participação na transmissibilidade da doença ou quadros clínicos graves.

Nos primeiros meses da pandemia, quando não conhecíamos o vírus presumimos que as crianças poderiam ser os grandes transmissores da doença, assim como em tantas outras viroses. Neste primeiro momento, foi importante o afastamento das crianças até que conhecêssemos melhor a fisiopatologia viral. Entretanto, estudos mundiais, metanálises, revisões, publicados em mais de 150 países desenvolvidos e em desenvolvimento já registraram uma evolução benigna da doença na faixa etária pediátrica, além de baixa carga viral e transmissibilidade naqueles menores de 10 anos. Apesar do que havíamos suposto no início da pandemia, as crianças NÃO SÃO OS GRANDES VETORES (“super spreads”) da COVID-19.

De acordo com Boletim Epidemiológico da Prefeitura de Belo Horizonte, publicado em 30/11/2020, nenhuma criança menor de 10 anos faleceu em consequência da Covid-19 no município e apenas um adolescente evoluiu para o óbito. Em contrapartida os danos mentais, sociais e físicos SÃO INEGÁVEIS E IRREPARÁVEIS de acordo com toda a sociedade civil e CIENTÍFICA MUNDIAL.

A Sociedade Brasileira de Pediatria, UNESCO, ONU, OMS, FIOCRUZ, CDC, ECDC destacam todos esses prejuízos devido ao prolongamento do período de fechamento das escolas. Destacando a disparidade e maiores consequências negativas nas populações mais vulneráveis do ponto de vista social e econômico. As crianças e adolescentes são privados do seu potencial de crescimento e desenvolvimento no tempo adequado “das janelas de oportunidades da infância”. Além de impactar profundamente o aprendizado, há maior risco de evasão escolar e suas consequências, aumento da desnutrição, exposição a riscos e distúrbios mentais.

A escola e o convívio dentro da comunidade escolar (mesmo com distanciamento) é fundamental para desenvolvimento da socialização, disciplina, frustrações, desenvolvimento da tolerância, autoconfiança e independência das crianças. IMAGINAR QUE AS CRIANÇAS NÃO SOFREM DE ANSIEDADE E DEPRESSÃO É DESCONHECER A NATUREZA HUMANA DAS CRIANÇAS. Os efeitos negativos da perda de dias letivos se aplicam a todas as faixas etárias pediátricas, com impacto nas habilidades cognitivas dos alunos e evasão significativamente maior, com óbvias repercussões ao longo da vida.

Quando privamos as crianças de irem às aulas, tiramos grande parte da sua base social e geramos um quadro de estresse mental, aumentando o nível de cortisol em seu organismo. Quanto mais tempo a criança ficar exposta a essa alta quantidade de cortisol, piores serão as consequências como: hipervigilância (paranóia), hiperatividade, impulsividade, dificuldade de controlar a fúria, dificuldades intelectuais, baixa autoestima e até aumento da criminalidade na idade adulta. O fechamento de escolas pode ter efeitos devastadores de longo prazo na vida dos alunos, especialmente daqueles já desfavorecidos.

São as escolas que acolhem, protegem, desenvolvem e mantêm saudáveis os nossos bens mais valiosos, as nossas crianças. Estudos em diversos países do mundo já mostraram que a abertura das escolas não foi relacionada ao aumento ou redução de casos, desde que haja protocolos adequados. Várias escolas da rede privada já preencheram critérios sanitários suficientes para a abertura. Sabemos da maior dificuldade das escolas da rede pública, mas várias já encontram condições adequadas e devemos exigir que as autoridades forneçam recursos suficientes para aquelas que ainda não conseguiram se adequar O FAÇAM COM URGÊNCIA. Negar a abertura de escolas - particulares e públicas (estaduais e municipais) que já estão preparadas porque o Poder Público não está destinando recursos para possibilitar a abertura de todas as escolas não resolve o problema, apenas aumenta o abismo e normaliza uma conduta errada do Poder Público que não pode ser mais tolerada

Além disso, a maioria esmagadora das crianças é infectada por um adulto que convive no mesmo ambiente. Vários estudos já comprovaram que a dinâmica da transmissão familiar se dá em mais de 80% por adultos e não por crianças. Adultos já estão saindo diariamente para o trabalho, muitos usando transporte coletivo e, por vezes, sem condições mínimas de sanitarismo.

Mais um fator importante é a redução da participação das mulheres no mercado de trabalho. Segundo IPEA, é a menor dos últimos trinta anos. Sem escolas, um dos responsáveis acaba deixando o trabalho para cuidar das crianças, na sua maioria são as mulheres.

A PRIORIDADE DA SOCIEDADE DEVE SER NOSSAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES E A ABERTURA DAS ESCOLAS COM PROTOCOLOS.

A SOCIEDADE QUE CUIDA DAS SUAS CRIANÇAS É AQUELA QUE CUIDA DO SEU FUTURO!

PRECISAMOS AINDA QUE O PODER PÚBLICO, EM TODAS AS CIDADES MINEIRAS, SE COMPROMETA A, CASO HAJA NECESSIDADE DE FECHAR A CIDADE NOVAMENTE, MANTER AS ESCOLAS ABERTAS COMO SERVIÇO PRIORITÁRIO.

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