Guaicurus. Uma das vias mais antigas de Belo Horizonte abriga, desde o período em que a capital mineira emergia, em meados do século 20, múltiplas facetas. Naquela época, comércios atacadistas começavam a se instalar na nova metrópole e surgiam hotéis. A cidade convivia com extravagantes festas e conhecia peculiaridades que, atualmente, integram o cotidiano de milhares de trabalhadores. 

Com o intuito de mudar a opinião de quem ainda torce o nariz para o hipercentro, vendo a região de forma estigmatizada e cheia de preconceitos, um grupo se reuniu, na manhã deste domingo (25), o local. O encontro fez parte do festival "Somos Todos Black". Protegidas por guarda-chuvas vermelhos, que simbolizaram o movimento das prostitutas, cerca de dez pessoas desceram a rua dos Guaicurus e subiram as famosas escadas da região. 

Em uma das paradas, Flávio Dornas, herdeiro de um dos hotéis da via, mostrou fotos antigas da rua, contextualizando-o com o crescimento da capital mineira. O empresário também contou, brevemente, histórias de prédios, como o que serviu de hospedaria para Hilda Furacão. “Ela era taxi-girl, não fazia programa”, enfatizou. Dornas ainda citou outros ilustres personagens que viveram na região, como Cintura Fina, que, travestido, se apresentava ao anoitecer.

Curiosidade e respeito

Produtora cultural, Cristiane Pereira, de 41 anos, foi uma das que ficaram admiradas com o que encontrou nos dois hotéis visitados pelo grupo: Motel Concord, localizado na rua Curitiba, e Magnífico, na Guaicurus. "Conhecê-la (Guaicurus) é uma curiosidade para muitas pessoas, inclusive para mulheres que não são trabalhadoras do sexo, pois essa questão sempre foi estigmatizada para nós", colocou Cristiane. 

Cristiane Pereira na Guaicurus

Se pudesse resumir o passeio eu uma só palavra, Cristiane escolheria "resistência"

Conhecer e poder enxergar melhor, sem preconceitos, o que de fato ocorre em uma das ruas mais emblemáticas da capital mineira, é um dos objetivos do passeio guiado. Uma das tutoras do encontro, que mostrou ao grupo os principais pontos da via e hotéis mais antigos, foi Thaís Leão. Ela, que faz parte do coletivo Clã das Lobas – grupo que cobra melhores condições de vida para as prostitutas –, veio de São Paulo há poucos anos, mas se encantou pela cidade. 

Segundo Thaís, que mapeou, recentemente, a movimentação no entorno da rua, existem, atualmente, 28 hotéis que recebem mulheres, homens trans. Ao todo, 3 mil pessoas trabalham no local. “Essa região é marginalizada da cidade. Não é o que todo mundo acha. Muitos pensam que, aqui, os roubos são mais frequentes, que a violência é maior, quando, na verdade, essas ocorrências podem acontecer na Praça 7, na avenida Afonso Pena”, pontua Thaís. Ela também diz que as pessoas "mistificam” demais a Guaicurus e pede mais consciente de todos. 

Vivendo no Brasil há poucos anos, o italiano Fabrizio Testi, de 35 anos, uniu, em um só passeio, a vontade de explorar a cidade e de compreender melhor o que acaba "escondido" na capital. “Passeio seguro, com o máximo de respeito tanto de quem está visitando quanto de quem está trabalhando, de quem vive aqui”, resumiu.