"Ela chegou aos 14 anos sem nunca ter conhecido o amor paterno e a impressão é que ela gritava por isso, mas acabou encontrando o seu pior pesadelo". É assim que a delegada Bianca Prado descreve a adolescente que conheceu o pai biológico recentemente em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ele foi preso na última quinta-feira (30) suspeito de estuprar, torturar e engravidar a garota. 

O caso chegou até a investigadora na segunda-feira da última semana, quando a mãe da adolescente entrou na delegacia aos prantos, logo após saber o que havia acontecido com a filha. 

"Ela disse: 'a minha filha de 14 anos está deprimida. Ele desvirginou ela, estuprou, colocou uma arma na cabeça da minha filha e agora ela está grávida, eu não sei o que fazer'. Assim que eu vi essa mãe contando isso ainda na recepção eu já chamei ela pra minha sala e ela me contou tudo", lembra a delegada Bianca Prado. 

Neste mesmo dia, mãe e filha foram encaminhadas para acompanhamento psicológico e assistência social, enquanto a equipe passou a investigar o caso. O desenrolar da história tinha detalhes que espantaram até mesmo a polícia. "Esses estupros continham uma série de requintes de violência", conta. 

A garota conheceu o irmão, um adolescente um pouco mais velho que ela, filho do suspeito, no fim do ano passado. Após isso, ela decidiu conhecer a família paterna e se aproximar deles. 

"A partir daí ela passa a querer fazer parte deste mundo e começa a frequentar a casa do pai de 15 em 15 dias. A mãe foi extremamente contra esta aproximação mas não justificou, na época, o porquê. Então a menina começa a passar os finais de semana na casa do pai e, em uma destas ocasiões, ela acorda amarrada, amordaçada e nua, e se depara com ele também nu na sua frente", conta a delegada. 

A suspeita é que a garota, que era virgem até então, tenha sido dopada nesta ocasião. "Após o primeiro estupro, que envolveu penetração vaginal, o homem pega uma arma e coloca na cabeça da filha, dizendo pra ela não contar pra ninguém se não ele a mataria e também mataria a mãe dela. E que é para ela não parar de frequentar a casa dele para não levantar suspeitas", explica. 

Quadro depressivo

Depois disso, a menina mudou o comportamento e passou a apresentar um quadro depressivo. Ela continuou frequentando a residência do pai nos meses seguinte, abril e maio, mas quando o estupro se repete, não consegue mais esconder a situação da mãe.

"Na segunda vez em que é estuprada, em maio, ela acorda do mesmo jeito, amordaçada, amarrada, mas desta vez, o pai pratica também sexo anal. Ele não aponta a arma para ela nesta segunda ocasião, mas repete o mesmo tom ameaçador. Inclusive, o termo que ela disse que ele usou foi: 'se alguém souber eu vou consumir com você'", relata a delegada Bianca Prado. 

Com uma depressão cada vez mais intensa e visível na menina, a mãe a pressiona e ela acaba contando tudo. Logo depois disso, a mulher vai à delegacia em estado de desespero e faz a denúncia. A equipe policial passa a agilizar o inquérito, o que permite que, quatro dias após a denúncia, o homem seja preso preventivamente. A adolescente só ficou sabendo da gravidez após a prisão do pai. 

"Ela está completamente desestruturada e está sendo acompanhada por psicólogos e psiquiatras devido ao grave quadro depressivo em que se encontra", diz.   

A gravidez

Após a denúncia, a adolescente passou por exames de sangue e foi possível constatar uma gravidez de dois a três meses de gestação. "O período de gestação é compatível com o depoimento da menina, de que o primeiro estupro ocorreu em março e o segundo, em maio", conclui a delegada. Dada a situação de violência, a intenção da família é que a adolescente retire o feto. 

O suspeito

O pai da vítima é um homem de 40 anos que se mostrou frio e calculista durante o interrogatório. "Quando falamos sobre os fatos para ele, ele não muda a expressão facial, é sempre a mesma. Quando eu falo 'você está preso', ele olha pra minha cara e fala 'que bom'. Eu costumo dizer que o inocente acusado de um crime se revolta, e ele não demonstra nenhuma revolta, e também não nega", explica a delegada. 

Quando questionada sobre o motivo de ter se mostrado contrária à aproximação da filha com o homem no início, a mãe respondeu que a relação dos dois havia acabado por excesso de violência da parte dele. 

O suspeito já sofreu uma tentativa de homicídio e, devido aos tiros que levou, tem um problema de locomoção. "Isso fecha com o que a garota nos contou. Antes dos estupros, ela era completamente imobilizada, amarrada, amordaçada, sem nenhuma chance de defesa. Porque se ela tivesse uma chance de se defender, com um chute ela conseguiria derrubá-lo devido a este problema de locomoção", explica. 

O homem, que está preso preventivamente, permanecerá na prisão ao longo do processo. Ele foi conduzido para a delegacia de Palmital enquanto aguarda vaga no Presídio de Ribeirão das Neves. A arma que ele usou para ameaçar a filha no primeiro abuso não foi encontrada e, portanto, as investigações continuam. 

"A carência da adolescente fica muito clara pra gente. Logo ao conhecer a família paterna, que mora em uma casa de três quartos, ela escolhe dormir no quarto do pai, para ficar mais perto dele. Estamos falando de uma menina que passou 14 anos sem nunca ter conhecido o amor paterno. Hoje, ela não consegue nem entender como isso tudo aconteceu, qual foi o gancho disso. Acho que na cabecinha dela, ela ainda está tentando processar todas as informações", conclui a delegada Bianca Prado. 

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