O Carnaval começou polêmico em Belo Horizonte. No início da noite dessa sexta (1), o militar que chefiava a segurança do bloco Tchanzinho Zona Norte, capitão Lisandro Sodré, proibiu que os foliões entoassem palavras de ordem contra o presidente Jair Bolsonaro (PSL). O bloco classificou o ato como censura e, em nota enviada neste sábado (2),  disse que vai acionar a Corregedoria da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) e o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). A PM disse que a decisão foi tomada para garantir a segurança de quem participava da festa.

Em nota, o bloco diz que Sodré chegou a ameaçar interromper a segurança do local caso as manifestações continuassem, medida que implicaria em risco a segurança das 70 mil pessoas que acompanhavam o Tchanzinho Zona Norte. Além de criticar Bolsonaro, os foliões entoaram gritos favoráveis ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que perdeu um neto de 7 anos nessa sexta-feira, vítima de meningite. 

“A ameaça de usar o efetivo da polícia como chantagem para satisfazer seus caprichos e ideologias pessoais demonstram um total descompasso com a função pública da Polícia Militar, que deveria estar ali para garantir a convivência das pessoas em sua diversidade. O Tchanzinho Zona Norte é um bloco que respeita e defende a democracia e a liberdade, só dobrando o joelho para rebolar o bumbum até o chão. Não nos rebaixaremos diante de atitudes de intolerância e desrespeito à diversidade de ideias e de expressão. As críticas a um governo envolvido com corrupção até o pescoço – como é o caso do governo Jair Bolsonaro – e com o que há de mais sujo e sanguinário na política nacional – os grupos milicianos, que são grupos de extermínio e esquadrões da morte financiados por dinheiro ilegal – já deveriam ser motivos suficientes para a indignação de qualquer pessoa e instituição que se diga ‘de bem’”, diz o texto.

De acordo com o porta-voz da Polícia Militar de Minas Gerais, Major Santiago, o capitão Lisandro Sodré agiu corretamente e evitou que milhares de pessoas pudessem ser pisoteadas. “No local, o vocalista usou palavras de baixo calão se referindo a Bolsonaro. Na visão dos policiais, houve inflamação do público. E houve pessoas que antagonizaram essa fala. O policial detectou pontos de tensão. E não estamos falando de centenas de pessoas, estamos falando de milhares”, disse. 
“Nós somos contra qualquer tipo de censura. Mas não podemos deixar de atuar ao percebermos pontos de tensão deixarmos de atuar porque vidas poderão entrar em risco”, completou.

Confira a nota do Tchanzinho Zona Norte na íntegra:

"Nota oficial do bloco Tchanzinho Zona Norte sobre o desfile de 2019 

O Carnaval do Tchanzinho é um carnaval de paz. Nosso carnaval é frequentado por famílias, crianças, jovens, adultos e idosos que buscam na folia carnavalesca compartilhar momentos de alegria e diversão. Durante todo o ano, participamos de campanhas e atos que fomentam e promovem o respeito à diversidade e o diálogo como saída para vivermos em um país onde a onda de ódio vem se avolumando a cada dia.

O bloco sempre foi e será um bloco político, pois o Tchanzinho Zona Norte nasceu e cresceu em um movimento de reação à imposições políticas de cerceamento de liberdades individuais e de ocupação dos espaços públicos por pessoas comuns e corpos brincantes durante a folia carnavalesca, durante a gestão de nosso ex-prefeito Márcio Lacerda.

Temos um histórico de 7 anos de um bloco politizado em sua essência e raríssimos foram os episódios de violência vivenciados em nossos desfiles. Nossos posicionamentos políticos não ferem a existência do próximo, não promovem a intolerância e a eliminação da diversidade, como o fazem vários discursos com os quais compactuam grupos que estão representados hoje, inclusive, na presidência da República, espalhando-se, consequentemente, com velocidade assustadora entre diversas camadas da população.

Neste contexto repudiamos o autoritarismo da Polícia Militar, representada na figura do capitão Lisandro Sodré, e pedirá aos órgãos competentes, como Corregedoria da Polícia Militar e Ministério Público, que se manifestem e tomem providências sobre o autoritarismo do policial e a tentativa de censura manifestada pela PM durante o desfile do Tchanzinho Zona Norte em 2019.

Durante o desfile, na noite de sexta-feira, o militar tentou determinar o que poderia ser cantado pelo bloco e quis impedir manifestações políticas. Sodré chegou a ameaçar que caso o bloco continuasse com as manifestações políticas ele retiraria o Policiamento do local. Tal atitude implicaria em risco a segurança das 70 mil pessoas que acompanhavam o bloco, mesmo com a forte chuva que nos acompanhou durante quase todo o trajeto. 

Quando o trio elétrico ainda estava em concentração, o capitão subiu na escada de acesso ao veículo e disse – em tom autoritário -  aos organizadores que eles teriam que parar com os gritos e músicas críticos ao presidente Jair Bolsonaro. O policial também disse que não toleraria manifestações favoráveis ao ex-presidente Lula. 

Sodré foi questionado por integrantes do bloco se a posição era oficial da Polícia Militar ou um posicionamento pessoal. Depois de muita insistência, ele disse que era uma posição dele. Questionado, ele disse que a ameaça dele não era uma ameaça à liberdade de expressão, pois o bloco estava fazendo “a defesa de um vagabundo”, se referindo ao ex-presidente Lula.

A ameaça de usar o efetivo da polícia como chantagem para satisfazer seus caprichos e ideologias pessoais demonstram um total descompasso com a função pública da Polícia Militar, que deveria estar ali para garantir a convivência das pessoas em sua diversidade. O Tchanzinho Zona Norte é um bloco que respeita e defende a democracia e a liberdade, só dobrando o joelho para rebolar o bumbum até o chão. Não nos rebaixaremos diante de atitudes de intolerância e desrespeito à diversidade de ideias e de expressão.

As críticas a um governo envolvido com corrupção até o pescoço – como é o caso do governo Jair Bolsonaro – e com o que há de mais sujo e sanguinário na política nacional – os grupos milicianos, que são grupos de extermínio e esquadrões da morte financiados por dinheiro ilegal – já deveriam ser motivos suficientes para a indignação de qualquer pessoa e instituição que se diga “de bem”. 

Apesar disso, o Tchanzinho Zona Norte sempre se comprometeu com o respeito às diferenças e, portanto, pessoas que compactuam com as orientações políticas do bloco ou não, são e sempre foram muito bem vindas em nossa festa, desde que não reproduzam discursos e práticas de violência e de intolerância. Não é à toa que realizamos nosso desfile em ambiente aberto, de forma gratuita e o divulgamos amplamente em nossas redes sociais e nas mídias tradicionais.

Acreditamos que atitudes como a do capitão Lisandro Sodré, ao contrário de estimular uma convivência pacífica entre pessoas de posicionamentos políticos divergentes (como sempre ocorreu em nossos desfiles), se presta à incitação de atos de intolerância por parte de foliãs e foliões, que se vêem legitimado por atitudes de semelhante intolerância vindas de uma instituição pública de tamanha importância, como é o caso da Política Militar.

Não é à toa que os casos de violência homofóbica e se multiplicaram no desfile do bloco após a intervenção de Sodré, chegando ao triste momento em que tivemos que atender, no trio, um amigo ensanguentado após ser chamado de viado e ser agredido a socos por conta de sua orientação sexual. Após um suspeito spray de pimenta (qual cidadão comum possui spray de pimenta no bolso?) lançado aleatoriamente em frente ao trio e da agressão gratuita a uma integrante da bateria do bloco por parte de um folião, optamos pelo encerramento do desfile, antes do local e horário previstos, para a garantia da segurança dos presentes.

Reconhecemos a importância da Política Militar para o carnaval de Belo Horizonte e, portanto, não nos furtamos a participar das diversas reuniões convocadas com o órgão e pela Belotur, para garantir a segurança de nosso desfile. Seguimos à risca as recomendações da PM para o desenrolar do desfile, reconhecendo a experiência de uma instituição que vem atuando há anos no setor de segurança pública em nosso estado. Se, por outro lado, as exigências da Política Militar passam pela censura às canções entoadas pelo bloco e ao endosso de posicionamentos de intolerância de de violência por parte de grupos que atuam com base no ódio à diversidade e à diferença, não podemos compactuar e sermos cúmplices.

Precisamos existir em nossas diferenças. Precisamos defender a democracia nos pequenos atos. Precisamos que nosso carnaval seja como sempre foi: de paz, de amor e de diversidade.

Somos fortes, somos muitxs e estamos unidxs! O carnaval do Tchanzinho Zona Norte resiste!”