Apesar de recomendadas pelo Ministério da Saúde, a cloroquina e a hidroxicloroquina não devem ser prescritas por grande parte dos médicos do país no tratamento de casos leves de Covid-19. A falta de eficácia comprovada cientificamente e possíveis efeitos colaterais dos medicamentos, ainda desconhecidos, são os entraves.

Em quadros mais graves da doença, porém, os fármacos não são descartados pelos profissionais, uma vez que ainda não se sabe o que, de fato, pode ajudar a salvar os contaminados pela enfermidade que vem assolando o mundo.

Em Belo Horizonte, a Secretaria Municipal de Saúde, por exemplo, só deve incorporar a terapia na rede pública se um ensaio clínico, ainda a ser autorizado pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), indicar benefícios das substâncias para o doente leve.

Na opinião de especialistas, inclusive, o que faltam são pesquisas mais amplas sobre os efeitos da cloroquina no tratamento da infecção pelo coronavírus. Os já realizados abrangeram poucos pacientes, destaca a coordenadora do Serviço de Reumatologia do Hospital das Clínicas da UFMG, Gilda Aparecida Ferreira.

Também pesquisadora da Faculdade de Medicina da UFMG, ela afirma que não há indicação para prescrever o remédio para prevenção nem para doentes leves de Covid-19. “Mais de 80% dos infectadas vão melhorar independentemente de tratamento. Estudo com número pequeno de pacientes não define se foi efeito da cloroquina”, diz.

Já em quadros mais graves, a reumatologista se mostra favorável ao uso da cloroquina. “Porque até o momento não se tem nenhuma medicação com comprovado benefício”.

Resultado positivo
Essa tem sido a alternativa para pacientes mais críticos internados no Hospital Madre Teresa, em BH. Mas, antes de qualquer decisão, o coordenador médico da UTI da unidade, José Carlos Versiani, diz que o paciente é orientado sobre potenciais benefícios e malefícios da cloroquina. “Se estiver de acordo, fará uso. Mas há situações em que, mesmo querendo usar, não tem indicação médica. O médico deve pautar ações em base racional e publicação científica”.

Segundo o intensivista, 100% dos pacientes submetidos ao tratamento se recuperaram e tiveram alta.

Além disso

Se a eficácia da cloroquina contra a Covid-19 ainda carece de estudos científicos mais abrangentes, o medicamento é bastante indicado, inclusive com benefícios comprovados, para doenças reumáticas, como lúpus e artrite reumatoide. 

Coordenadora do Serviço de Reumatologia do Hospital das Clínicas da UFMG, Gilda Aparecida Ferreira diz que o remédio é prescrito para 70% a 80% dos pacientes com lúpus da unidade. “Ele é extremamente fundamental”, frisa. 

A principal indicação é para o tratamento de lesões de pele e, no caso de artrite, dor articular. Indiretamente, ajuda a prevenir a trombose e a reduzir o colesterol.

Mas com o protocolo editado pelo Ministério da Saúde contemplando a Covid-19, Gilda Aparecida teme que a prescrição aumente para esses casos e deixem desguarnecidos os pacientes que hoje precisam da cloroquina. “É o que mais nos preocupa”, afirma a médica do Hospital das Clínicas e professora da Faculdade de Medicina da UFMG.
 

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