Quando Nelson Rodrigues adaptou uma frase famosa de Karl Marx afirmando que “o futebol é o ópio do povo”, não imaginava que seria necessário quase 50 anos até que ela começasse a perder o sentido. As manifestações durante a Copa das Confederações ano passado e o resultado de uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgada 15 dias antes da maior Copa do Mundo de todos os tempos – a ser realizada justamente no “país do futebol” – mostram que o brasileiro pode estar mudando suas prioridades. O levantamento mostra um alto grau de insatisfação com serviços públicos nas áreas da saúde, segurança, educação e transporte. Não há novidade nessas demandas, a não ser que elas permaneçam tão evidentes quando se esperava “um clima de Copa” mais conformado no ar.

Na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), a reclamação é maior em relação à saúde. Dos 400 mineiros ouvidos, 75% afirmaram decepção com os serviços prestados nesse setor. Em segundo lugar ficou a segurança, com 72%. Já o transporte contabilizou 71%, e a educação, 59%.

Índices que são ainda maiores em Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, capitais que também vão receber jogos da Copa, daqui a duas semanas. “Isso reflete uma dicotomia entre os discursos do governo e da população. Enquanto um que alega não ter recursos, acaba investindo em alguns setores não primordiais, o outro mostra em protestos e pesquisas que sente falta de saúde e segurança, dentre outros”, avalia o cientista político Rudá Ricci.

Problemas que coexistem com a melhora na vida pessoal dos brasileiros por causa da queda do desemprego e o aumento da renda, como mostra a pesquisa da FGV.

Carências

“As melhorias não superam as dificuldades, especialmente na saúde pública. A demora no atendimento, as filas intermináveis e a qualidade no serviço resultam em insatisfação”, explica o consultor técnico do Instituto Brasileiro para Estudo e Desenvolvimento do Setor Saúde (Ibedess), César Barros Vieira.

Para César, que também é professor da Faculdade de Medicina da UFMG, a solução para minimizar as reclamações passa pelo investimento no setor. “É preciso também uma gestão mais eficiente e efetiva em todos os níveis e participação da população, que é a mais interessada”, afirma Vieira.

O crescente número de vítimas da violência é apenas uma das consequên-cias desse gargalo. “Me sinto extremamente insegura em Belo Horizonte. Há duas semanas fui assaltada, levaram o carro do meu namorado com várias coisas de valor dentro, e não recuperamos nada. Ficamos vulneráveis”, diz a estudante de psicologia Bruna Arantes Bertoli, de 21 anos.

Investimentos

Em nota, o governo de Minas destacou que boa parte dos serviços citados na pesquisa da FGV são compartilhados entre o Governo Federal, Governo do Estado e prefeituras.

“Cabe aos municípios, por exemplo, prover atenção básica à saúde, educação infantil, parte do ensino fundamental e controlar os sistemas municipais de transporte. No que compete ao Estado na área de saúde, o governo trabalha incessantemente para oferecer serviços de qualidade aos contribuintes”, informa a nota.

Ainda conforme o Estado, na área de segurança pública, a Secretaria de Defesa Social e as polícias Civil e Militar realizam “esforços constantes” para redução dos indicadores de criminalidade e o aumento da segurança.

Ainda segundo o governo do Estado, até 2015 estão previstos investimentos da ordem de R$ 12,5 bilhões na área de transportes. “Além disso, Minas Gerais é referência nacional em educação básica”, reforçou a nota enviada pelo governo.