A volta das atividades não essenciais e a vacinação contra a Covid-19, mesmo que em ritmo lento, já indicam melhora na economia do país. Um dos reflexos está na contratação de jovens aprendizes. Sessenta mil estudantes que estão em busca do primeiro emprego devem ser contratados pela indústria ainda nesse primeiro semestre. As vagas estão sendo abertas em 20 estados, conforme dados da do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

O Instituto Ramacrisna é uma das entidades qualificadas em Minas Gerais pela Secretaria de Políticas Públicas de Emprego (SPPE), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), para fazer a inclusão desses trabalhadores no mercado, além de desenvolver competências. “A empresa que investe em um jovem do programa, está investindo em segurança”, afirma a vice-presidente do instituto, Solange Bottaro. Nessa entrevista, ela fala mais sobre o programa nacional. Confira.

Como é o Programa Jovem Aprendiz?

Ele foi organizado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) no ano 2000. Podem participar jovens de 14 a 24 anos, que estão estudando. É interessante porque eles não podem parar de estudar, o que enriquece ainda mais esse projeto. Eles são contratados por empresas como aprendizes. Para isso, é necessário ter uma organização social para estar preparando esse jovem e encaminhando à empresa.

E o jovem precisa ter um bom aproveitamento na escola?

Sim. Ele não pode faltar as aulas, precisa ter uma frequência alta, além de ter um bom aproveitamento em todas as disciplinas. É muito interessante porque quando ele já está na empresa, conhece outros jovens que estão fazendo faculdade ou já se formaram. E isso é um estímulo, muda a percepção. Ele passa a se dedicar mais aos estudos porque sabe que amanhã também pode frequentar uma faculdade, é uma grande motivação. Quando a gente avalia esse jovem e compara o antes e o depois do programa, ele é outra pessoa, porque percebeu que esse é o momento de aproveitar e aprender mais para que tenha uma condição melhor no futuro.

Como o Instituto Ramacrisna atua com esses jovens?

A Ramacrisna é uma das entidades aptas para o oferecimento de formação técnico-profissional metódica para aprendizes. Nesses 15 anos, desenvolveu uma metodologia muito interessante. Como são jovens em situação de vulnerabilidade, o processo é dar a eles uma perspectiva de vida melhor, já que nem sempre eles têm as condições básicas de comportamento em uma empresa, como se vestir, como conversar, como atender ao telefone. A ideia é ajudar o jovem a se colocar bem nesse ambiente para ser bem acolhido.

Quais os benefícios para a vida desses jovens?

Eu costumo falar que a empresa que investe em um jovem do programa, está investindo em segurança. Na verdade, o jovem, quando tem essa oportunidade, se distancia do mundo das drogas, da marginalidade e da criminalidade. É uma transformação. Às vezes, ele não tem a percepção do seu potencial e dos seus direitos, daquilo que ele pode almejar. A partir do momento que passa a frequentar uma instituição e a aprender, ele passa a ter um sonho. Aqui na Ramacrisna, eles são acompanhados por pedagogos, psicólogos e pelos diversos professores, e se sentem amparados, assim como a família deles, porque a gente também acolhe a família. A empresa faz um bem enorme para toda uma família que vai irradiando para a comunidade.

O atendimento é multifuncional...

Justamente. Fazemos o acompanhamento escolar, desenvolvemos diversas competências e ajudamos na melhoria do comportamento. O jovem aprendiz fica um dia conosco e quatro dias na empresa aprendendo o trabalho, seja como auxiliar administrativo, na área de logística, de recursos humanos, na recepção. São várias competências que nós ajudamos a desenvolver. As empresas solicitam de acordo com as necessidades dela e nós escolhemos os jovens de acordo com o perfil demandado. Aqui, na Ramacrisna, nós sempre encaminhamos três jovens para cada vaga, porque assim a empresa escolhe aquele que se adequa mais àquele ambiente.

Qual é a jornada desses jovens nas empresas?

A jornada é de 6 horas. No outro período ele tem que estar na escola. A gente não estimula o estudo noturno, porque ele pode ficar cansado e vai matar aula. Ele estuda pela manhã e trabalha à tarde, ou vice-versa.

Como as empresas participam do programa Jovem Aprendiz?

Toda empresa deve participar do programa por lei. As empresas de médio e grande porte devem contratar jovens como aprendizes, entre 5% a 15% do número total de funcionários, dependendo do tamanho da empresa. E a empresa tem uma série de benefícios, como a diminuição do percentual do FGTS pago ao aprendiz – 75% inferior à contribuição paga ao funcionário padrão. No caso de empresas que fazem adesão ao Simples Nacional, o valor passa de 8% a 2%. No caso das demais empresas, passa de 8,5% para 2,5%. No caso de pedidos de desligamento pelo jovem aprendiz, também é dispensado o aviso prévio remunerado e há isenção de multa rescisória. As empresas também podem contratar esses jovens, eles entram sem nenhum vício de trabalho e são moldados segundo a cultura, os valores e os princípios de cada empresa.

Qual o percentual de jovens aprendizes que passaram pelo Instituto Ramacrisna contratados pelas empresas nesses anos?

Por aqui já passaram mais de 3.400 jovens aprendizes que foram capacitados para o mercado de trabalho. O percentual de aproveitamento é muito significativo, em torno de 35%. Vale a pena investir em um jovem aprendiz. Ele aprendeu, se destacou e acabou sendo contratado porque sabe desenvolver todas as atividades pertinentes ao trabalho demandado. O número de desistência é mínimo, muitas vezes o jovem desisti porque conseguiu um outro emprego. E nós fazemos todo o processo de contratação, com carteira assinada e verificamos os benefícios, como os vales transporte e refeição. Pelo fato de fazermos todo o acompanhamento do jovem, e até mesmo da família, nós temos um índice de aproveitamento muito alto.

As empresas que definem qual é o perfil do jovem que procuram?

Elas nos procuram e já indicam qual o perfil que querem. Ou seja, uma pessoa que vai trabalhar na recepção, por exemplo, precisa ser comunicativa. Um outro exemplo, se for trabalhar na área administrativa, precisa entender de informática.

Como os institutos e empresas podem se cadastrar para ajudarem os jovens aprendizes a terem mais competência e habilidades?

O cadastro é feito no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os institutos devem atender a uma série de requisitos. O Ministério avalia a competência, as condições tanto físicas quanto estruturais, assim como os profissionais que estarão envolvidos no programa.

Quantas empresas vocês têm cadastradas na base para oferecer os serviços de um jovem aprendiz?

Tivemos uma queda no ano passado por conta da pandemia da Covid-19. Atualmente, nós temos 95 empresas na nossa base, mas nós podemos ter muito mais. O nosso espaço é muito grande, com laboratório de informática, salas de aula supermodernas, quadra de esportes, campo de futebol. Quem construiu nosso espaço foi o governo do Japão, então, é um prédio muito novo, moderno com ambientes muito claros e propícios para a aprendizagem, com espaços grandes e ao ar livre. Atualmente, são 464 adolescentes do Ramacrisna trabalhando em mais de 100 empresas em 13 cidades da região metropolitana de BH.

Quais as perspectivas em relação a 2021? Vocês já estão percebendo que as empresas estão voltando a procurar essa mão de obra?

Sim. Nós continuamos com as aulas virtuais já que, por enquanto, nós não podemos receber os jovens aqui, e eles continuam participando dos treinamentos nas empresas. Esse primeiro trimestre foi positivo para nós, tivemos a entrada de novos jovens e de novas empresas que também se interessaram pelo programa Jovem Aprendiz. Muitas empresas encerraram os processos ou diminuíram o número de jovem aprendiz, mas elas estão retomando agora, felizmente.

Acompanhe a entrevista na íntegra.