“Apontei a arma para o playboy dentro do carro e disse: passa logo o dinheiro e o carro, otário. Ele começou a tremer e a urinar na calça. Entregou a carteira pedindo pelo amor de Deus para eu não detonar ele, e saiu correndo, todo urinado”. O relato, feito entre risadas, é de um adolescente de 16 anos que afirma ter cometido pelo menos 50 assaltos.

Após 57 dias no Centro de Internação Provisória (Ceip) Dom Bosco, em Belo Horizonte, ele está há oito meses em uma das 11 casas de semi-liberdade mantidas em Minas pela Subsecretaria de Medidas Sócio-educativas, ligada à Secretaria de Estado da Defesa Social (Seds).

As unidades abrigam adolescentes infratores de ambos os sexos, de 15 a 17 anos, envolvidos em assaltos, furtos, tráfico de drogas e tentativas de homicídio. Os acusados de assassinato são levados para centros de internação.

Nesses locais, os jovens recebem acompanhamento psico-pedagógico, quatro refeições por dia e têm permissão para frequentar a escola. É como no regime semi-aberto para presos adultos. Nos fins de semana, eles podem visitar a casa dos pais ou recebem a visita de familiares.
 

Protagonistas

Vários jovens relatam situações em que protagonizaram assaltos, roubo de carros e motos, tráfico de drogas e tentativa de homicídio. A maioria diz gostar das casas de semi-liberdade e garantem que abandonaram o crime para ganhar a vida de forma honesta. “Era muito dinheiro. Eu e meus camaradas ‘tava’ (sic) nos assaltos todos os dias. Comprei um revolver calibre 22 na Praça 7, mas é um dinheiro que não vale a pena”, diz um jovem de 17 anos.

Outro, da mesma idade, conta que tentou matar um homem de 26 anos que o agrediu quando fumavam um baseado (cigarro de maconha). “Eu disse que ele estava enrolando errado e ele bateu na minha cara. Fui em casa, voltei com o revólver e dei cinco tiros, mas o cara sobreviveu. Minha mira estava muito ruim esse dia”, disse, sorrindo.
 

Cartilha

Na tarde de ontem, esses jovens participaram, no parque Lagoa do Nado, região Norte de Belo Horizonte, da divulgação de um CD e uma cartilha com letras de raps e funks produzidos por adolescentes nas oficinas de música das casas de semi-liberdade do Estado.

O CD é resultado das oficinas do rapper Russo, em parceria com o Instituto Ajudar.