Para muita gente, eles são quase uma extensão do corpo e passar um dia sem usar é como sofrer uma amputação. O “vício” em smartphones tem levado as pessoas a ignorar leis de trânsito, a desrespeitar o regulamento das companhias aéreas e até a buscar ajuda psicológica.

No primeiro semestre deste ano, o uso do celular ao volante saltou do terceiro para o segundo lugar no ranking de infrações de trânsito mais cometidas pelos belo-horizontinos, ficando atrás apenas do excesso de velocidade, na comparação com o mesmo período do ano passado.

Nem mesmo os R$ 85,13 descontados do bolso e os quatro pontos adicionados à carteira de habilitação dos infratores parecem surtir efeito. Em dois dias, a reportagem do Hoje em Dia flagrou vários exemplos de descumprimento da legislação nas ruas da capital.

E a história se repete no restante do país. De acordo com o Ministério das Cidades, utilizar o celular no trânsito é uma das principais causas de distração no Brasil, aumentando em até 400% o risco de acidentes como atropelamentos e colisões.

A imprudência é considerada equivalente à ingestão de bebida alcoólica antes de dirigir e levou a pasta a criar um aplicativo que impede o motorista de atender chamadas enquanto está ao volante.

Impactos reais

A falta de limites e o descontrole dos usuários mais viciados também chegaram às alturas. Nos aviões, o uso de dispositivos eletrônicos é proibido durante a decolagem e o pouso, mas é comum encontrar pelo menos um passageiro teimoso, incapaz de permanecer offline por algumas horas ou minutos.

O descumprimento da determinação tem obrigado comissários a adotar uma postura mais rígida. A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), representante das companhias, afirma que ainda não foi necessário alterar o procedimento padrão, mas ressalta a importância do cumprimento dele, considerado uma medida de segurança, pois existe a possibilidade de a frequência dos aparelhos gerar interferências nos sistemas de comunicação das aeronaves.

Ansiedade

Segundo o psicanalista Jacques Akerman, a dependência que as pessoas vêm desenvolvendo pelos aparelhos telefônicos já é considerada uma patologia e, em alguns casos, precisa ser tratada com medicamentos para conter a ansiedade causada pela abstinência.

Esse fenômeno tem até nome científico: adicção aos eletrônicos. “Existe uma universidade em Berlim que já possui uma linha de pesquisa sobre vícios nos aparelhos. É uma situação que está tomando uma proporção muito grande”, diz.

Para Akerman, vários fatores podem justificar esse movimento, mas os principais são a solidão e o narcisismo contemporâneos. “A tela do celular é tomada com uma espécie de espelho.

Nele, basta apertar uma tecla para desviarmos daquilo que nos incomoda. Na vida real, é um pouco mais difícil fazer isso”, afirma o psicanalista.

Na mesma frequência do avião

Há quem defenda o contrário, mas, dentro dos aviões, é necessário, sim, manter celulares e demais dispositivos eletrônicos desligados. O coordenador do curso de ciências aeronáuticas da Universidade Fumec, Deusdedit Reis, explica que os aparelhos que transmitem e recebem dados podem causar interferência no sistema de navegação ou de comando das aeronaves.

Os comandos para subir, descer e acelerar o motor dos aviões são feitos por pulsos eletrônicos. “A faixa de frequência dos celulares pode interferir neles, o que seria catastrófico”, alerta o professor.

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