Família reunida, mesa farta na hora do almoço, troca de presentes e de felicitações. Tradicionalmente, esse é o cenário de um domingo como o de hoje, em comemoração ao Dia dos Pais. Mas, para muitos deles, o foco será outro e a data, de celebração aos filhos.

Grandes admiradores de seus herdeiros, eles deixaram de lado os ensinamentos para dar lugar ao aprendizado, tanto profissional quanto pessoal. Apesar da experiência acumulada ao longo dos anos, os patriarcas renderam-se às lições dos filhos e descobriram neles uma mola propulsora para os negócios e uma inspiração para a vida.

O resultado foi uma grata surpresa e, em alguns casos, uma reviravolta nas empresas, provocadas por mudanças radicais – para a melhor, vale ressaltar.

Doce família

Lalka

“Se quiser falar de uma empresa de família, essa aqui é a própria”. É assim, com a boca adocicada, que o presidente da fabricante de chocolates Lalka, Stanislau Grochowski, demonstra o orgulho de fazer parte de uma história escrita há quatro gerações. Filho do fundador da empresa, ele preparou filhos e netos para dar continuidade à produção. “Hoje, todos eles estão bem adaptados, praticamente não precisam aprender mais nada, já sabem de tudo. Às vezes, fico na dúvida quando aparece uma coisa nova e eles é que vêm me ensinar, me atualizar”. Apesar da modéstia, o filho Roberto afirma que o aprendizado com o pai foi um dos fatores que o motivaram a seguir na fábrica. “A gente até tenta sair do negócio quando somos jovens, rebeldes, mas depois a gente vê que o caminho é esse aqui, nas coisas que aprendemos, e que temos um bom professor”. A esperança do empresário é a de que o negócio continue na quinta geração. “É muito bonita a continuação em família e é uma satisfação muito grande transmitir isso a eles”, diz Stanislau.
 
Unha e carne

parrila

Rivagner Lizeu da Silva tem motivos em dobro para festejar o Dia dos Pais: além de ter duas filhas, ele é considerado “pãe” desde que acumulou as funções de pai e mãe depois de ficar viúvo. Diretor administrativo do restaurante Parrilla Porteña e experiente no ramo empresarial, foi com a filha Fernanda, jornalista, que ele aprendeu a promover o negócio e a se relacionar com a mídia. “Isso nos orgulha muito, não só a mim quanto à empresa como um todo, por podermos contar com uma pessoa que, além de ter a capacidade profissional, tem interesse em nos ajudar”. Do outro lado, também não há economia nos elogios: “Ele é um paizão. Eu e minha irmã perdemos nossa mãe cedo e ele sempre foi muito presente, nos apoiando nos estudos e no trabalho. Como empresário, é um exemplo e é o melhor pai do mundo. Sei que todos falam isso, mas ele é mesmo”, assegura Fernanda.
 
Amor expresso

Villa Café

“Orgulho” é a palavra-chave na relação de Paulo Duarte com o filho Rafael, representante da quinta geração de administradores de uma empresa especializada em cafés gourmet, o Villa Café. Desde que assumiu o cargo de diretor-executivo, Rafael conseguiu não apenas incrementar o portfólio do empreendimento, que hoje conta com mais de cem itens, como também conquistar ainda mais a admiração do pai. “Aprendo muito mais com ele do que ele comigo. Na realidade, sempre acreditei que é mais importante ensinar a pescar do que dar o peixe. Então, como pai, tenho grande orgulho do trabalho do Rafael”, derrete-se Paulo. E o reconhecimento é recíproco. “Entre meados de 2006 e 2007, eu fiz o projeto inteiro de viabilidade de mudança operacional da empresa. Mas é lógico que meu pai é um grande visionário, meu guru. De todos os professores que tive, com certeza ele é o mais importante”, garante Rafael.
 
Choque de realidade

Loja elétrica

Wagner Mattos faz parte da terceira geração no comando do Grupo Loja Elétrica e, agora, acompanha o desenvolvimento profissional da própria filha dentro da empresa. Mas engana-se quem pensa que é ele quem ensina a ela o que fazer. “Coisa boa é ver os filhos não somente como filhos, mas também como pessoas que vão te ensinar, porque esse relacionamento é uma via de mão dupla. Eu aprendo todos os dias, e é muito”. Avesso à tecnologia, Wagner conta com o conhecimento de Caroline, responsável pelo setor de e-commerce, criado há um ano e meio, quando ela entrou na empresa. “Pudemos expandir nossas vendas, que eram restritas a Minas, para o Brasil inteiro. Sempre tive certeza de que queria fazer parte desse negócio”, diz ela. Embora reconheça que a pressão em cima de Caroline seja maior, justamente por ela ser filha do diretor da empresa, ele garante que ela está se saindo bem na função. “Da mesma forma que como pai temos alguma coisa para contribuir, a geração mais nova tem a nos ensinar”.

Campo fértil

troféu

Há cerca de dois anos, a vida de Carlos Cruz deu uma guinada de 180 graus por causa do filho mais velho, Arthur, de 17 anos. Apesar da pouca idade, foi ele quem orientou o pai a diversificar o negócio que ele toca em paralelo à coordenação do curso preparatório Pro Labore. “Eu criava gado de corte e não queria mexer com pecuária de leite de jeito nenhum. Hoje, não apenas temos gado leiteiro como participamos de exposições e fazemos fertilização in vitro na fazenda”, diz Carlos. Já Arthur acha que o pai exagera ao falar do conhecimento dele em pecuária, mas revela que, no fundo, se sente bem com a situação. “Gosto de orientá-lo, me sinto importante”, diverte-se o adolescente. Para Carlos, a melhor parte de ceder à persuasão do filho, como ele mesmo diz, foi a aproximação. “Eu não teria feito isso se não fosse a influência dele. Mas de cara vi que foi um bom negócio, porque meu filho se aproximou de mim no trabalho, nossas atividades juntos estão acentuadas e tenho a certeza de que terei um companheiro para sempre”.