A competência e a criatividade dos pesquisadores brasileiros têm sido fortes aliadas no enfrentamento da Covid-19, que já faz do país o epicentro da pandemia mundial. Na Universidade Federal de Lavras (Ufla), cientistas desenvolveram um adaptador para converter máscaras de mergulho em máscaras para respiradores mecânicos, que, extremamente vedadas, impedem que o doente, ao expelir partículas respiratórias, contamine o entorno, especialmente profissionais de saúde.

A ideia de adaptar máscaras de mergulho com esse fim, conta o professor do Departamento de Ciências da Saúde (DAS) da Ufla e médico Hélio Haddad Filho, surgiu na Itália, no ápice da pandemia por lá. A iniciativa da Empresa Júnior de Engenharia Mecânica, Torque Jr; com o auxílio do coordenador do curso de Engenharia Física, professor Jefferson Esquina Tsuchida; do Departamento de Física (DFI); e do professor Hélio Haddad Filho adequa a tecnologia para a realidade brasileira.

Como funciona
Haddad explica que o trabalho consiste em uma troca de válvulas nas máscaras de mergulho: “Em cima dessas máscaras de mergulho, o snorkel, para respirar, é retirado, e adaptada uma conexão produzida em impressora 3 D. A função desse conector, já que a máscara de mergulho pega o rosto todo, é uma máscara facial total, é impedir a eliminação de partículas respiratórias para o ambiente. O conector une a máscara ao ventilador mecânico”.

Os pesquisadores da Ufla fizeram um piloto desse equipamento, segundo Haddad, e o testaram, certificando seu potencial de vedar a eliminação de partículas respiratórias. A proposta inicial do projeto, revela o médico, era, vendo a demanda dos três hospitais de Lavras, município de 100 mil habitantes que abriga a universidade, no Sul de Minas, produzir cinco unidades para cada uma dessas instituições de saúde, que atendem pelo SUS.

Mas é possível que a produção seja maior, de até 30 máscaras adaptadas, o que permitirá que hospitais de outros municípios sejam beneficiados, admite Hélio Haddad Filho. Segundo ele, instituições de várias partes do Brasil já fizeram contato com a equipe da Ufla em busca de informações sobre a tecnologia, que pode salvar vidas, especialmente de profissionais que atuam na linha de frente contra a Covid-19.

A expectativa dos cientistas agora é pela liberação dos recursos que vão financiar a produção dessas 15 a 30 máscaras adaptadas. Assim que forem liberados, afirma Haddad, serão compradas as máscaras de mergulho e, chegando o material para produção, os novos equipamentos ficam prontos em dois ou três dias. Esses recursos poderão vir da própria Ufla ou da Prefeitura de Lavras, informa Haddad. 

Mais em conta
O custo de cada um desses equipamentos é outra conquista dessa pesquisa. Cada máscara adaptada pela equipe da Ufla pode ser confeccionada por um valor entre R$ 300 a R$ 400, revela o professor Hélio Haddad Filho, ao passo que, no mercado, máscaras similares, para uso por profissionais da saúde, com tal nível de vedação, são vendidas por preços entre R$ 1.500 a R$ 2.000.

“É um valor alto para que instituições de saúde que atendem pelo SUS possam adquirir para uso por mais profissionais. A produção dessas máscaras pela Ufla vai ajudar mesmo depois da pandemia, para outros fins, em outras doenças”, comemora Haddad.
 

Além disso
A pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Lavras (Ufla) para a confecção do adaptador que transforma a máscara de mergulho em uma máscara para respirador mecânico é resultado de uma iniciativa dos alunos que integram a Empresa Júnior de Engenharia Mecânica, Torque Jr. 

O projeto da peça, o desenho em 3 D, ressalta o coordenador do curso de Engenharia Física, Jefferson Esquina Tsuchida, foi feito pelos universitários. De acordo com o professor, o trabalho é parte das ações desenvolvidas na Ufla para incentivar projetos de empreendedorismo entre os estudantes.

“Os meninos da graduação da Engenharia Mecânica ficaram bem incomodados com esta questão da pandemia e queriam ajudar de alguma forma. Então, eles montaram esse grupo interdisciplinar, me procuraram, em um momento em que eu já estava trabalhando no desenvolvimento das máscaras ‘face shields’”, conta Jefferson Tsuchida, reforçando que, em vez de ficar parados em casa, os estudantes se mexeram e estão muito empenhados no projeto.