Sebastián Cuattrin nasceu em Rosário, na Argentina, terra do craque Messi e do revolucionário Che Guevara. Aos 5 anos, se mudou com a família para Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, onde o pai, que era engenheiro e professor, recebeu uma proposta de trabalho. Gostou tanto da nova terra que acabou se naturalizando brasileiro.

Foi nas águas do Rio Doce que o maior canoísta do país deu as primeiras remadas rumo a uma carreira vitoriosa. A forte ligação de Cuattrin com a região fez o ex-atleta sofrer em dobro com a lama que tomou conta do rio na última semana, após o rompimento das barragens Fundão e Santarém, em Mariana.

Mesmo distante cerca de 600 quilômetros, o remador, que hoje vive no Rio de Janeiro, tenta acompanhar o drama dos conterrâneos. Além de muitos amigos e parentes, a mãe dele, Sílvia Liliana Bagnasco de Cuattrin, mora em Valadares.

“Passei boa parte da minha vida ali. Todos os cantos deste rio para mim têm uma história diferente. Foi o começo de tudo. É uma tristeza acompanhar esta tragédia, ver os peixes morrendo, as pessoas sem poder pescar. Para mim, o rio faz parte da história da minha carreira, mas para muitas pessoas, representa o sustento das famílias. E isso que é preocupante. A situação é muito complicada, realmente”, avalia Cuatrrin.

“Num primeiro momento, a preocupação era com o risco de destruição e com a perda de vidas humanas. Graças a Deus, as águas não saíram do leito. Mas os danos ambientais são incalculáveis”, completa. Ele tem falado diariamente com dona Sílvia para saber da situação da cidade.

Como numa despedida, uma semana antes do maior desastre ambiental registrado em Minas, Cuattrin e as águas do rio Doce se encontraram. Entre um compromisso e outro, ele arrumou um tempinho para visitar a família e matar saudade do local.

Com amigos, remou durante algumas horas. “O que me dá mais tristeza é que eu nunca tinha visto o leito do rio tão limpo como estava desta vez. O nível estava bem mais baixo por causa da falta de chuva, mas a água estava cristalina. E agora o tempo todo eu vejo vídeos de amigos mostrando os peixes lutando para sobreviver, enquanto outros já morreram no meio daquela lama toda”, lamenta.

A visita está registrada em uma foto que ele postou no Twitter com a legenda “O lugar onde tudo começou”. Mãe do remador e vizinha do rio Doce, na Ilha dos Araújo, dona Sílvia tem tanta paixão por onde o filho começou a remar que não teve coragem de ir ao local no dia que a lama chegou. “É até difícil falar. A gente só chora e lamenta as consequências. Meu filho está muito preocupado com a situação de todos aqui e da cidade”, diz Sílvia, que tenta se virar com o pouco de água que conseguiu armazenar.

'Quando você não respeita a natureza, sofre as consequências’

Sebastián Cuattrin aprendeu cedo a lição que as autoridades parecem ainda não ter conseguido assimilar, mesmo após tragédias semelhantes ocorridas em Minas. “Respeitar a natureza é fundamental. Ela é muito poderosa. Quando você não respeita, sofre as consequências, como aconteceu agora em Mariana e está tendo reflexos em várias cidades”, alerta.

Apesar de as preocupações com a situação da mãe, dos irmãos e amigos que estão em Governador Valadares, Cuattrin não encontrou tempo para voltar ao rio Doce após o desastre, mas fala todos dos dias com os familiares. Desde outubro de 2013, ele gerencia a canoagem no Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos Rio 2016, que vem tomando boa parte do seu tempo.

“Minha parte não é na preparação dos atletas, mas na preparação dos locais das provas. É desafiador, porque temos que deixar tudo perfeito para daqui um ano receber os maiores atletas do planeta. Mas tenho certeza que vamos fazer bonito”.

Carreira vitoriosa

Foram quatro participações em jogos olímpicos, nove medalhas em Copas do Mundo de Remo, 11 em jogos Pan-americanos, 25 em Sul-Americanos ao longo de 22 anos de seleção brasileira. Em 2016, ele será um dos condutores da tocha olímpica na passagem por Governador Valadares.