De cada dez ônibus do transporte público metropolitano de Belo Horizonte vistoriados, pelo menos cinco apresentam falhas que obrigam o recolhimento dos veículos. As irregularidades em metade da frota inspecionada podem provocar transtornos aos passageiros e até acidentes de trânsito.

Relatório do Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DEER) mostra que 1.339 coletivos foram fiscalizados de janeiro a outubro deste ano. Nada menos que 753 foram direcionados às garagens das empresas após checagem nas partes mecânica e elétrica e no layout dos carros.

Os principais problemas são pneus carecas, freios com defeito, elevadores inoperantes, pintura deteriorada e ausência dos letreiros de identificação da linha. As más condições resultaram em um aumento de 133% nas multas aplicadas às concessionárias. Nos dez primeiros meses de 2018 foram 1.654 autuações, contra 708 no mesmo período do ano passado.

Conforme o DEER, os fiscais atuam por demanda, após denúncias, e em operações pontuais. O sistema, no entanto, não garante que toda a frota seja vistoriada. Em caso de reprovação, a empresa é notificada e obrigada a colocar outro coletivo na rua.

Professor de transporte e trânsito do curso de engenharia de trânsito da Fumec, Márcio Aguiar lembra que, para muitas pessoas, esse é o único meio de locomoção disponível entre a capital e cidades da Grande BH. Para o especialista, a vistoria deve ser feita nas garagens, antes dos deslocamentos.

“Não se pode resumir a inspeção apenas nos que tiveram reclamação ou se acidentaram. É um problema muito mais profundo, que requer atenção. É uma precariedade histórica porque praticamente só temos o sistema de ônibus para atender a toda população”, afirma o docente, que ainda acrescenta: “é preciso envolver o motorista, pois é ele quem opera o sistema e conhece o veículo que dirige”.

Além dos riscos, as falhas podem comprometer a mobilidade urbana. “Se o usuário não está satisfeito, ele vai comprar uma moto ou um carro. O resultado é um trânsito cada vez mais tomado por veículos”, diz Aguiar.

Ônibus metropolitano
Falta de letreiro para indicar a linha do ônibus também obriga o recolhimento do coletivo

Reclamações

Quem depende dos ônibus demonstra insatisfação com o serviço. A dona de casa Adriana Vieira, de 40 anos, vai ao centro da capital regularmente com o pai, João Lúcio Vieira, de 75. O aposentado é cadeirante e faz tratamentos de reumatismo e de um trauma na coluna. O maior empecilho é a acessibilidade.

“O elevador nunca funciona. A gente sempre tem que contar com a ajuda de alguém”, contou Adriana, ao desembarcar com o idoso de um coletivo da linha 2380 (Vale das Amendoeiras – Contagem/ BH), que estava com equipamento quebrado.

Para João Lúcio, a situação é um descaso. “Fico muito chateado. Não consigo caminhar e sequer tenho outra saída sem ser o ônibus. É ruim ficar incomodando as pessoas para me ajudar toda vez”, lamenta.

Promessas

Só no primeiro semestre deste ano, mais de 105 milhões de pessoas utilizaram os ônibus do transporte metropolitano. A frota é composta por 2.765 veículos, mas o DEER não informa a quantidade exata de col[/TEXTO]etivos vistoriados. Segundo o órgão, as inspeções podem ocorrer mais de uma vez no mesmo carro. 

Em meio às falhas mecânicas e operacionais, usuários também reclamam de outras situações que, segundo ele, são frequentes. No topo da lista de queixas estão: descumprimento do quadro de horário, recusa de passageiro e estado de conservação.

“Não me sinto segura. O motorista cobrando a passagem não presta atenção totalmente no trânsito, e o sistema precisa de carros novos”, afirma Carla Souza, de 29 anos. A babá, que mora em Betim e trabalha em Belo Horizonte, tem quatro opções de linhas para fazer o deslocamento.

Segundo o DEER, é responsabilidade das empresas manter a frota “em perfeitas condições de uso e realizar as devidas manutenções preventivas e corretivas dos veículos”, conforme prevê a legislação. Ao órgão, cabe o papel fiscalizador.

O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano (Sintram) informou que as empresas operadoras do sistema “trabalham para sanar de forma imediata os problemas apontados”.

Ainda conforme o órgão, vistorias internas nos coletivos são realizadas nas garagens. “Os ônibus passam constantemente pelas revisões e saem das garagens após limpeza completa e revisão de sua estrutura”.

Também em nota, a Secretaria de Transportes e Obras Públicas (Setop) informou que um decreto de 2014 admite vida útil de até 18 anos para os carros, desde que apresentado laudo de vistoria. “Não existe, porém, nenhum veículo nestas condições”. A idade média da frota da Grande BH é de 7,6 anos.

Ônibus reclamação