Colocar os pés no chão, desligar-se da tecnologia e simplesmente ser criança. O roteiro parece seguir na contramão da infância moderna, mas é assim que a festa Fantástico Mundo da Criança atrai a meninada ao Parque das Mangabeiras, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, há 29 anos.

De acordo com o chefe de departamento da Fundação de Parques Municipais (FPM), Robson Machado – há 12 anos na organização do evento –, a proposta é valorizar o conhecimento dos jovens por meio da programação cultural e do resgate de brincadeiras antigas.

“A festa em si é bastante tradicional, tanto na concepção quanto na dimensão que a cidade a encara. Ela não se prontifica a acompanhar modismos ou avanços tecnológicos. Queremos oferecer às crianças a oportunidade de brincar com coisas diferentes do dia a dia”.

Neste ano, o tema será o “Universo Infantil de Fernando Sabino”, escritor mineiro nascido em 12 de outubro de 1923. “É surpreendente a reação das crianças diante do que é apresentado a elas quando damos a chance de descobrirem coisas novas”, diz Machado.

Formação

A professora do curso de Psicologia da Universidade Fumec Marilourdes do Amaral Barbosa ressalta a importância da iniciativa na socialização dos jovens.

“Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, isso é extremamente importante. O contato pessoal gera conflitos e interesses. Aprendendo a lidar com eles agora, a criança saberá lidar também na fase adulta”, diz.

Outro ponto positivo, segundo Marilourdes, é a interação entre pais e filhos, perdida no corre-corre cotidiano. “Hoje, o contato ocorre apenas à noite e nos fins de semana. Mesmo assim, é cada um sentado em uma cadeira, com um celular ou um tablet na mão. Não há diálogo nem troca de experiências. Brincar no parque é uma forma de resgatar os valores da família”.

Dose certa

Para o diretor de Parques da Área Sul da FPM, Homero Brasil Filho, esse cenário é lamentável e mostra ainda mais a necessidade de promover eventos como o que acontece no Parque das Mangabeiras anualmente.

“Há umas duas edições, criamos uma sala de multimeios com brinquedos eletrônicos. Eu fui contra, porque queria que as crianças interagissem mais entre elas. Como dizem os mais velhos, temos que medir a água e o fubá”.

Segundo o diretor, o público atingido nos dias de realização do evento (cerca de 50 mil) mostra que ele tem força mesmo sem se render às tendências. “Temos atividades o dia inteiro e opções para os adultos também”.

É preciso mesclar a tecnologia com o lúdico

Uma maneira de atingir o equilíbrio entre o moderno e o tradicional, conforme Marilourdes Barbosa, da Universidade Fumec, é resgatar nos próprios pais a criança interior que existe neles. ´

“Não há como evitar que a tecnologia faça parte da vida dos filhos, mas eles não precisam perder o lado lúdico nem deixar de se sujar, correr ou rolar na lama, coisas que os meninos de hoje não fazem mais”.

Ciente disso e saudosa da própria infância, vivida em uma casa com quintal, subindo em árvores e interagindo com outras crianças, Fernanda Ocarino, de 36 anos, tenta conciliar o vício em tecnologia dos filhos com momentos de lazer “à moda antiga”.

“É muito importante estimular brincadeiras ao ar livre – e mais saudável também. Com elas, aumenta o contato de uma criança com a outra, eleva a quantidade de amizades e, assim, tudo fica mais divertido”.

Teoria x prática

Mas para Henrique Ocarino, de 8 anos, caçula da casa, não é bem assim. Apesar de adorar soltar papagaio na praça e brincar no carrinho de rolimã feito pelo pai, é do mundo virtual que ele gosta mais. “Prefiro YouTube e jogos eletrônicos, porque acho mais legal e divertido. Adoro eletrônicos”, conclui, destacando que viver sem eles seria “muito chato”.

A irmã mais velha, Giulia Ocarino, de 9 anos, é mais flexível. “Brincar em praças e parques é mil vezes melhor. Adoro me divertir ao ar livre”, afirma, confessando que ficar sem internet torna-se um problema apenas na hora de fazer as pesquisas de escola.