Após treze horas de protestos pela Linha Verde, avenida Cristiano Machado e no Centro de Belo Horizonte, integrantes das ocupações populares encerraram a manifestação às 18h30 desta quinta-feira (2). Ao contrário do último ato em 19 de junho, quando houve confronto com a Polícia Militar, o movimento desta quinta foi pacífico, apesar dos transtornos causados ao trânsito da capital, que continuou mesmo após o fim do protesto.
 
As aproximadamente 300 pessoas que participaram do protesto, segundo a PM, são moradores das ocupações  Vitória, Esperança e Rosa Leão, na região do Isidoro de Belo Horizonte. Eles buscaram chamar a atenção das autoridades para o possível despejo do terreno e conseguir agendar uma reunião com representantes da Prefeitura de BH para negociar a permanência deles nos terrenos. No entanto, nenhum encontro foi agendado.
 
Em função do protesto, motoristas enfrentaram lentidão, durante todo o dia, nas vias onde o grupo se deslocou, como na avenida Afonso Pena e no entorno da Praça Rio Branco. Viaturas do Batalhão Rotam e o Caveirão da Polícia Militar acompanharam de perto o ato, mas não houve intervenção.
 
Marcha
 
O ato foi iniciado por volta das 7h desta quinta. Moradores das ocupações saíram em caminhada rumo ao Centro da capital mineira, a partir da Linha Verde, seguindo pela avenida Cristiano Machado. No trajeto eles ocuparam até três faixas do corredor, atrapalhando o trânsito no trecho.
 
A adesão no primeiro momento foi baixa e alguns moradores chegaram bater na porta das casas de outros ocupantes para chamá-los para a manifestação. Segundo a integrante do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MRV) Poliana de Souza, muitas pessoas ficaram com medo após a repressão da Polícia Militar (PM) na última manifestação pela Linha Verde. Apesar do receio, eles esperam reunir 2 mil famílias.
 
 
 
Ao contrário da manifestação passada, realizada no dia 19 de junho na MG-010, em que houve confronto entre a PM e os manifestantes, poucas crianças marcham nesta manhã. Faixas, cartazes e um carro de som e instrumentos musicais são usados pelos integrantes da passeata. Várias viaturas da Polícia Militar acompanham os moradores, que seguem organizados pelo trajeto.
 
O grupo seguiu até o Centro de BH, onde fez uma primeira parada em frente a uma agência da Caixa Econômica Federal, na rua Tupinambás, que chegou a fechar as portas. O batalhão de eventos da PM fez um cordão de isolamento como medida de segurança. A rua chegou a ficar bloqueada durante alguns minutos e depois teve uma faixa liberada.
 
Às 16h20, o grupo voltou a se deslocar pela avenida Afonso Pena, em direção ao prédio da Prefeitura de BH para uma nova parada e onde deverá encerrar o protesto. Os manifestantes chegaram a fechar todas as quatro faixas da via, no sentido Mangabeiras, gritando "Resiste Izidora". Ao chegar a sede do Executivo da capital, os manifestantes tomaram as escadarias e soltaram foguetes no local, liberando duas faixas para o trânsito.
 
Com o movimento, eles pretendem pressionar o governo para que uma política urbana que atenda aos interesses dos ocupantes seja repensada. A principal proposta é a manutenção das áreas mais adensadas, com casas mais estruturadas, como as de alvenaria. As outras áreas poderão abrir espaço para o programa Minha Casa Minha Vida, explica Poliana. "Dessa forma, atende todo mundo mais a fila do governo".
 
A reintegração de posse na região da Isidoro, que deveria ter sido cumprida a partir de 22 de junho, foi suspensa até pelo menos 6 de julho, após reunião na Defensoria Pública com representantes do governo, deputados e lideranças do movimento. Para o próximo 8 de julho está prevista uma reunião com o Governo do Estado com a presença de representantes da Caixa e da PBH.
 
Visita
 
Os deputados das Comissões de Direitos Humanos, Participação Popular e Assuntos Municipais e Regionalização da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) agendaram uma visita nesta sexta-feira (3) a Santa Luzia para verificar a situação das ocupações urbanas Rosa Leão, Esperança e Vitória. 
 
De acordo com a assessoria do deputado Cristiano Silveira (PT), durante uma audiência pública realizada na Assembleia em maio deste ano, os moradores das ocupações reclamaram da ausência da prestação de serviços básicos, como coleta de lixo e fornecimento de luz e água. Na ocasião, o deputado teria lembrado que a dificuldade para obtenção desses serviço se devia ao fato dos lotes ocupados não estarem devidamente regularizados. Assim, um dos objetivos da visita seria tentar garantir, junto à prefeitura e ao Governo do Estado, o fornecimento mínimo desses serviços à população local.
 
Na época da audiência, os moradores das ocupações ainda relataram que as propostas de negociação eram unilaterais e visavam à retirada das famílias e a derrubada de todas as edificações, hortas e benfeitorias feitas pela comunidade, com posterior realojamento de parte dos moradores em edifícios a serem construídos no projeto Minha Casa, Minha Vida, pela PBH, na região, com "possível" pagamento de auxílio-aluguel.
 
Ainda segundo a assessoria de Cristiano Silveiro, outro objetivo da visita seria propor a retomada das negociações entre os líderes das ocupações e as autoridades, tendo em vista o iminente cumprimento da ação de reintegração de posse das áreas ocupadas, que pode levar ao despejo de 8 mil famílias.