O movimento “Quero Japaraíba Mais Verde” tenta barrar os planos da usina Biosev S/A, a segunda maior processadora de cana-de-açúcar do mundo, que teve receita líquida de R$ 1,33 bilhão em 2014 e cultiva 1.700 hectares no município de 3.900 habitantes. Um manifesto com assinaturas de 683 moradores contra a expansão dos canaviais, que ocupam 70% do território municipal, foi entregue à empresa, Ministério Público Estadual (MPE) e outras autoridades.
Contra a vontade da população, segundo o guarda civil e ambientalista Wiliam Moura, de 39 anos, a Biosev projeta sua expansão em 97 hectares de Cerrado, área com nascentes do rio Santana, afluente do São Francisco. Também pretende investir sobre o que resta de áreas da agricultura familiar.

Japaraíba oferece encantos naturais que podem gerar renda com o turismo: torneios de mountain bike e de motociclismo não mais ocorrerão se os canaviais tomarem o que resta desse cenário.

Resposta

Em resposta, a Biosev afirmou que respeita as determinações dos órgãos ambientais e que só planta cana-de-açúcar em locais autorizados e licenciados. Informou que desenvolve projetos de educação ambiental, plantio de mudas e revitalização das margens dos rios. Com outorga da Agência Nacional de Águas (ANA), destaca o vice-presidente da Associação Ambientalista dos Pescadores do Alto São Francisco (AAPA), Saulo de Castro, a empresa retira água  do São Francisco 24 horas, ao custo de R$ 0,01 por mil litros, enquanto a sociedade civil paga R$ 1,96 pela mesma quantidade e alguns bairros de cidades da região, como Arcos, ficam sem abastecimento.

Em Lagoa da Prata, onde os canaviais cercam o perímetro urbano, a monocultura traz problemas como as “chuvas de cinzas” causadas pela queima da palhada da cana e o mau-cheiro do vinhoto. Castro lamenta os efeitos danosos aos berçários de peixes do São Francisco. “Em um breve espaço de tempo, temos o privilégio de ver as ‘Mães do Rio’ em todo seu esplendor, que é quando o rio transborda inundando suas várzeas, onde se encontram as lagoas. Mas, como os canais de drenagem continuam abertos, assim que o volume de água abaixa, as lagoas vão junto”.

Documentário

Em 2013, a AAPA produziu o filme “Rio Interrompido”, minidocumentário que narra a história do desvio que matou oito quilômetros do São Francisco. Considerado pelo MPE o maior crime contra o curso d’água, há também os impactos sobre as lagoas marginais e a destruição da mata ciliar.

Degradação gerada pelo cultivo de cana e criação de gado

A Associação Ambientalista dos Pescadores do Alto São Francisco (AAPA) fez os mapas das lagoas destruídas. O documento foi anexado aos laudos do Ibama, material que também reúne depoimentos de pescadores. Os defensores do rio esperam que as autoridades ajam com rigor contra as empresas agrícolas responsáveis pela degradação ambiental.

“Tem um tanto de gente a favor da revitalização das lagoas, os únicos contrários são proprietários de terra, que arrendam 30 mil hectares para a produção de cana. O Ibama exige a preservação de 50 metros de mata nativa no entorno das Áreas de Proteção Permanente, mas os donos não querem abrir mão dessa renda fácil. Com isso, eles colocaram gado para comer o capim”, lamenta o arquiteto urbanista Carlos Guadalupe, conhecido como Lalinho.
ntegrante do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema) e do Conselho da Cidade de Lagoa da Prata, Lalinho é categórico em relação à luta por justiça ambiental na região.

“Tem que haver uma solução, nem que seja daqui a 50 anos. O Alto São Francisco tem mais de 50 lagoas, algumas de até 200 hectares, lindas. Álcool e açúcar são enviados para São Paulo e exportados a outros países sem que a população mineira ganhe algo com isso”, critica.

Injustiça

O professor Saulo de Castro, vice-presidente da AAPA, afirma que denúncias são feitas desde 2001 e vários inquéritos civis foram instaurados para apurar os fatos. Porém, nenhum foi concluído. “Alguns foram arquivados, julgados improcedentes, apesar de embasados em autuações até do Ibama, com multas pesadas para o infrator. Todavia, nosso Judiciário não acatou a denúncia. É frustrante, mas é a realidade”.

Segundo ele, a recuperação de todas as lagoas do Alto Rio São Francisco é viável. “Estas lagoas são importantes para o ecossistema da região e fundamentais para a reprodução de peixes. Não é à toa que são chamadas de berçário natural. É nelas que acontece o fenômeno da piracema. Sem elas, não há como o rio repor seu estoque de peixes. A fauna silvestre prospera em seu entorno. Mas, infelizmente, alguns preferem produzir biocombustível e carne para churrasco do que preservar este potencial hidrológico”, queixa-se Castro.

O ambientalista afirma que os canaviais tomaram conta de 70% do território dos municípios de Lagoa da Prata, Japaraíba, Arcos, Luz, Moema e Santo Antônio do Monte. Sobram 30% de Cerrado. “Há pouco espaço para a fauna, que morre queimada junto com as extensas quadras de cana-de-açúcar. Todos os anos ocorrem incêndios na época da safra”. O gado, destaca Castro, pisoteia e destrói as nascentes e Áreas de Preservação Permanente (APPs).