Sair de uma situação de violência doméstica não é fácil. Apesar das agressões, muitas mulheres só conseguem deixar os relacionamentos nocivos com a ajuda de outras, que agem como verdadeiras “guardiãs” e dedicam a vida a cuidar dessas pessoas.

Elas se inspiram na história de Maria da Penha Maia Fernandes, farmacêutica que ficou paraplégica após sofrer violência durante 23 anos de casamento, e hoje é líder de movimentos de defesa das mulheres, além de dar nome à lei que prevê punição mais rigorosa para os agressores. 

Foi após uma relação abusiva, com ameaças sucessivas do ex-namorado, que a psicóloga Gabriela Velocini, de 25 anos, resolveu estudar a situação de quem é agredida pelos companheiros. O projeto de pesquisa da mestranda, aluna da UFMG, é continuação dos trabalhos que fez com transexuais e travestis, na época de graduação. 

“Na psicologia, a melhor escola é a sua própria terapia. O interesse foi surgindo na minha análise. À medida em que via o que estava funcionando para mim, fui me desprendendo e conseguindo nomear o que era violência e construindo limites. No dia que disse o primeiro ‘não’ para meu namorado, quis fazer esse trabalho com outras mulheres para ajudá-las a terem voz”, conta. 

Hoje, Gabriela é voluntária na Casa de Referência da Mulher Tina Martins, no Santa Efigênia, região Leste de BH, prestando atendimento psicológico a quem foi agredida pelo companheiro. O local oferece gratuitamente orientações jurídicas e até abrigo para mulheres ameaçadas.

Nas sessões de terapia, a mestranda tenta fazer com que as vítimas enxerguem que, mesmo com as adversidades, são capazes de sair da situação desfavorável.  “Tento deixar alguns questionamentos, como: O que a mulher pode fazer? Como ela pode se empoderar? O que gosta de fazer? O que ela é além daquela relação?”, explica.

Engajamento

As mesmas reflexões fazem parte do dia a dia da estudante de serviço social Bárbara Mota, de 22 anos, uma das coordenadoras da Casa Tina Martins. A jovem, que já viveu um relacionamento abusivo, é responsável por receber as mulheres que chegam ao local em busca de ajuda e encaminhá-las para projetos sociais. 

Organizado pelo Coletivo Olga Benário, o espaço tem capacidade para abrigar até oito pessoas. “Sento com elas, acolho, ouço. Uma das principais metas é fazer com que essas vítimas percebam que a violência que sofreram não é culpa delas. É um processo muito longo. A alternativa que temos, como mulheres, é nos organizar e lutar para transformar a sociedade em que vivemos”, diz.

Estrutura

Dentre as “guardiãs” que se dedicam a ajudar estão desde mulheres que militam em movimentos até aquelas que se envolveram na causa graças à profissão. 

A major Cleide Barcelos, comandante da Companhia Independente de Prevenção à Violência Doméstica, da Polícia Militar, viu a carreira tomar um rumo completamente diferente ao ser designada para liderar o atendimento às vítimas de agressões dentro de casa na capital mineira.

Ela trabalhou no administrativo da corporação e também nas ruas, atendendo variadas ocorrências, até janeiro de 2018, menos de dois meses após a criação da estrutura destinada ao cuidado com o público feminino. A major considera a mudança um “presente”, por conseguir fazer diferença na vida de pessoas que, até então, estavam sem esperança. 

violência

“A meta é fazer com que as vítimas percebam que a agressão que sofreram não é culpa delas”, diz Bárbara Mota 

 

“É extremamente gratificante quando conseguimos esclarecer a situação e ela percebe ser capaz de sair daquele ciclo de violência, vê que existe solução. Nós a ajudamos a encontrar uma saída e reforçamos esse processo de mudança. Para mim não há realização maior”, afirma. 

Em 2018, 2.730 famílias de Belo Horizonte foram acompanhadas por 42 policiais da companhia. 

 

Apoio policial ajuda vítimas a denunciar e voltar a sorrir 

A ajuda de voluntárias e de serviços especializados faz toda a diferença para muitas mulheres que têm medo de denunciar agressões cometidas por pessoas próximas, como cônjuges. Depois de sofrer uma série de ameaças, abusos psicológicos e ser impedida até de trabalhar pelo marido, Tânia Malta, de 51 anos, finalmente pode respirar aliviada dentro de casa. O homem, que descumpria a ordem judicial para não se aproximar dela, foi preso na última semana. 

Um dia após a detenção, a vítima trocou todas as fechaduras da residência e agora não esconde o sorriso. “Finalmente me sinto livre. Venho denunciando desde 2017”, conta. 

 

 

“Se estou viva é porque havia companheiras do meu lado 
para me ajudar nesse processo. Então faz todo sentido para mim retribuir isso e pensar 
em uma transformação”

Bárbara Mota
estudante de serviço social

 

Tânia passou a ser acompanhada por oficiais da Companhia de Prevenção à Violência Doméstica, da PM, após registrar o primeiro boletim de ocorrência contra as agressões. O casal estava junto há 24 anos e tem dois filhos, de 8 e 21 anos. 

A dona de casa destaca que o suporte das forças de segurança, que também orientam a vítima na busca à assistência jurídica e psicológica, foi essencial para que ela seguisse com o processo contra o parceiro.  “A companhia me orientou a representar contra ele e ir à Defensoria Pública para garantir medidas protetivas na Justiça”, diz. 

Flagrante

O agressor foi proibido de conversar, se aproximar e morar na mesma casa que Tânia. Porém, até o flagrante policial, continuava a viver sob o mesmo teto que o restante da família. Enquanto a mulher tentava gravar vídeos para provar as ameaças, o marido dizia que uma hora “perderia o controle” e que era o único dono do imóvel porque “botava comida em casa sozinho”. 

A tenente Bruna Lara foi uma das primeiras a atender o caso e explica que o intuito da ação não é separar ou juntar casais, mas, sim, quebrar o ciclo de violência doméstica. “O que buscamos é explicar para o agressor que ele precisa respeitar a mulher. É uma questão cultural que, às vezes, está muito enraizada. Quando vemos o sorriso de uma vítima é gratificante. Você sair depois de um dia de serviço e saber que fez a diferença na vida de alguém é fantástico”, afirma.