O ensino superior está cada vez mais inclusivo. Faculdades com infraestrutura acessível ajudam a explicar o crescimento de quase 70% nas matrículas de pessoas com limitações físicas e intelectuais em Minas, de 2012 a 2017, conforme o último censo do Ministério da Educação (MEC). O índice é ainda maior se comparado à média nacional, de 41%, no mesmo período. 

Piso tátil, rampas, elevadores, computadores adaptados e tutores são diferenciais. Além disso, destaca-se a perseverança dos universitários para conquistar o tão sonhado diploma. Que o diga Lityza Maia, de 29 anos. Por conta de um glaucoma, ela tem baixa visão no olho direito e já não enxerga com o esquerdo. Há risco de a jovem ficar totalmente cega.

Mesmo assim, a limitação não a impede de avançar no curso de psicologia nas Faculdades Promove, em Belo Horizonte. No próximo semestre, ela encara o quarto período da graduação. 

Como sempre gostou de estudar, para chegar ao ensino superior Lityza criou técnicas para fazer leituras com monóculo e lupa. Na sala de aula, a estudante precisa escrever com agilidade para não perder o conteúdo.

“Sei das dificuldades que a deficiência me traz, mas me locomovo bem, estudo e posso trabalhar. Quando necessário, vou aprender o Braille (sistema de escrita em relevo) e utilizar outras ferramentas, mas continuarei com a minha independência”, afirma Lityza Maia.

Assistência

As faculdades desempenham papel importante na assistência aos alunos com necessidades especiais. Coordenador psicopedagógico das Faculdades Kennedy e Promove, na unidade Prado, em BH, Cláudio Vieira de Lima explica que o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI), elaborado pelo Núcleo de Orientação Psicopedagógica (NOP), auxilia a pessoa com deficiência a explorar o potencial que tem. No ano passado, quatro estudantes com deficiências estavam na instituição. Em 2019, são 12.

O gestor explica ser possível oferecer mais comodidade a esse público. No caso de quem tem baixa visão, o processo de ensino envolve materiais com letras grandes e papel reciclado, evitando o contraste do branco, que prejudica a leitura.

Já os hiperativos, que perdem a concentração facilmente com o barulho, fazem as provas em uma sala em separado. Os alunos com dislexia (dificuldade para aprender a ler e escrever) acessam um programa no computador que permite a eles compreender a leitura sem embaralhar as letras.

“Os professores também são capacitados em palestras e treinamentos para melhor atender a essas pessoas”, diz Cláudio Vieira.

Inclusão ensino superior

Desafios no cotidiano

Desafios encontrados no dia a dia são os principais empecilhos para que pessoas com deficiências desempenhem as mais diversas atividades, como entrar para a faculdade, observam especialistas.

“Ônibus com apenas uma vaga para cadeirante, a falta de capacitação de professores e a falta de empatia de colegas acompanham esse aluno desde o ensino fundamental”, frisa a psicóloga Denise Martins Ferreira, membro do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência. 

Para ela, houve muitas conquistas por meio de leis e políticas públicas. Por outro lado, a especialista, que também faz parte da Comissão da Pessoa com Deficiência da OAB-MG, diz que a sociedade ainda não tem a cultura da inclusão.

Stephanie Severino, de 30 anos, sentiu na pele essa dificuldade. Com mais de 50% da audição comprometida nos dois ouvidos, ela não encontrou um curso de libras na cidade onde mora, na região Central do Estado, quando viu a necessidade de aprender a língua de sinais. “Pode me ajudar bastante, por isso quero fazer”. 

Atualmente, ela está matriculada no 6º período de nutrição nas Faculdades Promove, na capital. Durante o percurso, pensou em desistir várias vezes. “Mesmo com aparelho, é muito difícil escutar. Mas com o apoio que recebi, quando completei a metade do curso, resolvi que iria me formar. Esse é meu sonho”, diz.

Integração

Nas Faculdades Promove e Kennedy, os estudantes se deparam com atividades de inclusão. “Trouxemos um coral com pessoas cegas para o fechamento de um projeto. A proposta foi mostrar que a diferença não anula competências individuais”, explica o coordenador psicope-dagógico da unidade Prado da instituição, Cláudio Vieira de Lima.

Mercado de trabalho

Em vigor desde 1991, a Lei nº 8.213 garante cotas de vagas de emprego para pessoas com deficiência. Com a regulamentação, empresas com cem ou mais funcionários são obrigadas a preencher de 2% a 5% dos cargos.

Cynthia Prata, vice-presidente da Associação da Síndrome de Asperger – transtorno que afeta a capacidade de se socializar –, avalia que, além de um salário, o curso superior garante uma profissão a esse público. “Antes, as vagas oferecidas eram de subordinados. Com a graduação, eles podem desenvolver talentos e serem médicos, professores e exercer qualquer outra função”, ressalta.

É o que busca Lityza Maia. Apaixonada por crianças, após a formatura ela quer atuar na área de psicologia infantil. Já Stephanie Severino deseja trabalhar em uma cozinha industrial, na manipulação de alimentos.