Esqueça o esoterismo e as religiões e deixe de lado vocação, deuses e cânticos. Hoje, a meditação é reconhecida pela ciência e já faz parte das recomendações médicas para tratamento de cânceres e depressão e como paliativo para doenças incuráveis.

No mundo todo, a técnica vem ganhando força e tendo a eficácia cada vez mais comprovada. Em março deste ano, por exemplo, o jornal norte-americano The Washington Post publicou uma entrevista com a neurocientista do Massachusetts General Hospital e Harvard Medical School, Sara Lazar.

Adepta da meditação há duas décadas, Sara decidiu conduzir uma pesquisa sobre os efeitos da prática como trabalho de pós-doutorado. Com os estudos, ela constatou alterações importantes – e positivas – nos meditadores, quando comparados a um grupo de controle.

Após oito semanas, as pessoas que meditaram apresentaram espessamentos em quatro regiões do cérebro, relacionadas a divagações mentais e autorrelevância; aprendizagem, cognição, memória e regulação emocional; tomada de perspectiva, empatia e compaixão; e produção de neurotransmissores reguladores.

Reforço na recuperação

Em 2010, a professora do departamento de Oncologia da Universidade de Calgary, no Canadá, Linda Carlson, publicou um manual para pacientes com câncer de mama mostrando a contribuição da meditação para o tratamento da doença e a recuperação do controle da própria vida.

Em fevereiro último, um novo estudo de Linda sobre o tema foi publicado no jornal Cancer. Junto a outros pesquisadores, a professora concluiu que os telômeros (protetores das proteínas presentes nas células) foram preservados em pacientes meditadores que haviam superado o câncer de mama, mas ainda apresentavam problemas emocionais – o desgaste dos telômeros provoca danos à saúde.

Aqui no Brasil, embora o país caminhe mais lentamente do que os Estados Unidos e nações europeias no que se refere à meditação, a técnica tem ganhado espaço e acumulado mais praticantes.

Adesão

“Eu recomendo aos meus pacientes, porque (a eficácia) é cientificamente comprovada. O Hospital Albert Einstein, em São Paulo, tem um setor de meditação, assim como o hospital dos servidores (públicos), no mesmo Estado”, afirma o acupunturista da Unimed-BH Carlos Eduardo Martins Guimarães.

Segundo ele, os pacientes que meditam apresentam uma “melhora incrível” no estado de saúde e na resposta aos tratamentos. “Como médico, aconselho as pessoas a praticarem, porque quando meditam, o fluxo de energia fica suave, é direcionado a todos os órgãos, induzindo o corpo a um estado de harmonia e equilíbrio”, conclui Guimarães.

A psicóloga Antônia Ferreira, de 60 anos, é prova disso. Desde que incluiu a meditação na rotina, há quatro anos, sente-se mais relaxada. “Ela vai na contramão da nossa vida agitada e tem efeitos na pressão arterial e no sono, o que é muito interessante e tranquilizador. Quero me aperfeiçoar mais a cada dia”, garante.

Empresas lançam mão de técnicas meditativas para melhorar a liderança e os relacionamentos

No campo profissional, a meditação é utilizada para aprimorar a qualidade da liderança e dos relacionamentos. Com esse enfoque, ela é chamada de Mindfulness, termo traduzido no Brasil como “mente presente” ou “atenção plena”..

Uma pesquisa realizada há cerca de cinco anos ouviu 80 líderes de 12 organizações que passaram pelo treinamento de Mindfulness. Desses, 93% afirmaram terem tido impacto positivo nas habilidades de inovação, 89% notaram melhorias na capacidade de escutarem a si mesmos e aos outros e 70% disseram que o pensamento estratégico foi favorecido.

“Essa meditação não está vinculada a nenhuma religião. Pode ser praticada por qualquer pessoa. Não tem mantra nem precisa de incenso”, explica o professor e sócio-fundador da Associação Brasileira de Mindfulness, Alexandre Lunardelli.

Segundo ele, grandes empresas, como Google e Facebook, já incluíram a prática no dia a dia delas. “A ‘atenção plena’ é o treinamento da atenção para uma mente saudável, calma e clara. É a meditação que vai além do comum com práticas informais, que são conversas, escutas, pausas intencionais ao longo do dia. É um método indicado para todo mundo, com benefícios comprovados na saúde, educação e dentro de empresas”, diz Lunardelli.

Quem se rende aos benefícios da prática não quer parar

Movida pela insistência da filha Giovana, de 17 anos, em fazer algo novo neste ano, a advogada Cláudia Biron Rocha, de 45, chegou descrente a uma aula experimental de ioga, há oito meses. Mas, bastou alguns minutos para se render e, de lá para cá, ela descobriu que não consegue mais ficar sem praticar. Por meio da ioga, ela ingressou, também, na meditação.

“Falar que é tranquilo, para mim não é. Tenho dificuldade para concentrar e levo um tempo para conseguir. É tanta correria na nossa vida que fica difícil desacelerar para concentrar em uma coisa só, mas a gente consegue. Já senti o efeito, principalmente, para estudar. Hoje, consigo focar no livro e esquecer do que está lá fora”, confessa Cláudia, que recentemente foi aprovada no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Os resultados da serenidade conquistada com a meditação e as aulas de ioga já foram percebidos por outras pessoas que, volta e meia, comentam sobre a tranquilidade da advogada.

“Sou muito acelerada e tenho ouvido muita gente dizer que estou mais tranquila ultimamente. Até minha filha estranha minha reação diante de algumas situações, me acha muito calma. Não sei o que é, mas isso está mudando minha vida. Continuo agitadinha, mas mudei. Às vezes, a gente se dá conta disso quando outras pessoas falam a respeito”, diverte-se.

Ser consciente

De acordo com a professora de ioga e meditação e vice-presidente da Associação Mineira de Yoga (Amyoga), Dinorah Rumin Penha, esse é, justamente, o propósito da meditação.

“Não é só a questão comprovada pela ciência, da coisa física e do sistema nervoso. Trabalhamos a questão do ser completo em todos os aspectos: físico, mental, emocional e espiritual. A meditação ajuda a trazer a integração do ser”, ressalta Dinorah.

Segundo a professora, a maior parte dos alunos que procuram aprender a técnica, hoje, é levada por problemas como depressão e ansiedade, buscando acalmar a mente. Sobre as dificuldades iniciais, como a relatada por Cláudia, Dinorah garante que é tudo uma questão de prática, simplesmente.

“Parece um bicho de sete cabeças, mas basta ter intenção e vontade. Para mudar um hábito, leva-se, no mínimo, 90 dias. Para tudo o cérebro precisa de tempo e com a meditação é a mesma coisa. Nossa cultura quer resultados muito rápidos, sempre a curto prazo, e não é bem assim que funciona”, afirma Dinorah.