O medo da violência tem levado moradores de Belo Horizonte a lançar mão de todo tipo de tática para proteger as próprias residências. Blindagem de portas e os chamados “bunkers” – uma espécie de quarto do pânico que isola um cômodo contra perigos externos – são alguns dos sistemas já utilizados para impedir a ação de bandidos. A Polícia Militar incentiva os investimentos, alegando não dar conta, sozinha, de toda demanda da cidade.

Tanta preocupação tem motivo. Só nos primeiros seis meses deste ano, 2.549 furtos ou roubos a casas e apartamentos foram registrados na capital, média de 14 ocorrências por dia.

Para dificultar a entrada de ladrões, uma alternativa eficaz é a instalação de um tipo de porta antiarrombamento que resiste a até 20 minutos de tentativas de invasão com ferramentas como pé de cabra, alicate e chave de fenda. O material, vendido em BH há cerca de um ano, vem conquistando adeptos.

“Além de ter isolamento acústico e cortar o fogo, é uma solução para garantir mais segurança”, diz a supervisora de vendas da Sumisura, Letícia Muniz. A loja de arquitetura é representante exclusiva da porta, italiana, na capital mineira.

Visualmente, o equipamento não se distingue de outro comum. Mas o revestimento de vidro laqueado e pintado com um perfil fino de alumínio assegura o diferencial da porta, que pode custar até R$ 30 mil, dependendo das dimensões.

Em conta

Há opções mais acessíveis no mercado. A empresária Carolina*, por exemplo, gastou R$ 6 mil para instalar uma porta mais robusta – com espessura larga e nove trancas – na entrada do apartamento onde vive, no bairro Buritis, região Oeste. Além disso, o prédio já conta com alarmes, câmeras de monitoramento e outros dispositivos de defesa.

“Era negligente, até que perdi meu marido em um latrocínio. Desde então, pago caro para ter minha própria segurança. A vida vale mais do que isso”, afirma.

No bairro de Lourdes, na região Centro-Sul, medidas também são tomadas para reforçar a proteção dos prédios. Treinamento de porteiros e grupos de WhatsApp já servem para driblar a ação de bandidos. Agora, a associação comunitária do local fez um levantamento das fragilidades de segurança de cada condomínio.

“As providências já estão sendo tomadas. As melhorias são importantes para manter a segurança do bairro, que, mesmo sendo muito visado, tem baixos índices de violência”, diz o presidente da associação que representa os moradores, Jeferson Rios.

Segundo o consultor em segurança Heroildo Fernandes, o cômodo protegido por porta antiarrombamento deve ter energia elétrica e linha telefônica independentes. “Muita gente pode achar caro trocar uma porta, colocar um sistema de câmeras ou instalar alarmes, mas o custo-benefício é mais baixo do que ter de arcar com os prejuízos de um assalto”.

*Nome fictício

Medo da violência produz residências blindadas em BH

Santo Agostinho aguarda Olho Vivo há quatro anos

Embora os índices de assalto a residências sejam baixos no bairro Santo Agostinho, região Centro-Sul de Belo Horizonte, outra modalidade de crime tira a tranquilidade de quem mora no local: furtos e roubos de carros. O problema é antigo e não há solução à vista, segundo o presidente da Associação de Moradores e Amigos do Santo Agostinho (Amagost), Rodrigo Laender.

“A grande quantidade de ocorrências levou a população a pedir por mais câmeras de videomonitoramento nas ruas, no Orçamento Participativo Digital de 2011”, afirma. Até hoje, porém, nenhum equipamento foi instalado.

A assessoria de comunicação da Guarda Municipal informou que, até o fim de 2015, seis câmeras do Olho Vivo começarão a funcionar no bairro. No entanto, o local exato da instalação é mantido em sigilo por questão de segurança.

Blindagem de Carros

Para proteger os veículos contra ladrões, a procura por blindagem de carros também tem crescido. Em um ano, o número de clientes que buscaram o serviço na capital praticamente dobrou. Na Target Blindagens, que atua desde 2002, dez automóveis são blindados todos os meses.

O serviço, que leva 30 dias para ser concluído, tem preço salgado: de R$ 45 mil a R$ 55 mil. “Tem quem nos procure por já ter sofrido assalto, mas grande parte busca se precaver baseado no que aconteceu com amigos ou parentes”, diz o gerente da loja, Emerson Márcio Henriques.

Rede de vizinhos protege famílias e ainda ajuda a PM

Criada em 2004 para ajudar na prevenção e no combate à violência, a Rede de Vizinhos Protegidos é, atualmente, a principal arma da Polícia Militar para evitar o arrombamento de residências.

Presente em diversos bairros de Belo Horizonte e no interior do Estado, a iniciativa prevê que moradores de uma rua ajudem a vigiar as casas próximas, denunciando à PM ações suspeitas. Em alguns casos, os participantes utilizam apitos como forma de alerta.

Para o major Sérgio Dourado, assessor de comunicação do Comando de Policiamento da Capital (CPC), a expansão da rede justifica a ligeira redução no número de ocorrências no último ano.

Entre janeiro e junho de 2014, 2.668 residências da capital foram furtadas ou roubadas. Nesse mesmo período de 2015, a quantidade de registros diminuiu para 2.549 – queda de 5%.

Números

“Os números não são altos se formos comparar com outros tipos de crimes e se levarmos em consideração o tamanho da cidade”, afirma o major Dourado.

Ainda assim, ele reforça a necessidade de investir na autoproteção. “A verdade é que as pessoas precisam se preocupar com a própria segurança e tomar medidas em relação a isso. Se houver facilidades, os bandidos vão agir e a Polícia Militar não dará conta de todos os casos”.

Portas antiarrombamentos podem servir para criar uma espécie de bunker, esconderijo utilizado sobretudo em cidades em guerra e que contêm suprimentos de sobrevivência

2.580 roubos e furtos de carros Foram registrados em Belo Horizonte nos primeiros sete meses deste ano