A queda de mais um avião de pequeno porte no bairro Caiçara, na região Noroeste de BH, causando três mortes, reacendeu a discussão sobre os riscos de operação do Aeroporto Carlos Prates para a segurança das comunidades vizinhas. Desde 2008, pelo menos oito acidentes com aeronaves que decolaram do terminal foram registrados na capital.

Fundado há 75 anos com foco na formação de pilotos, aviação desportiva e de pequeno porte, o local se tornou também sede de empresas de manutenção e escolas do ramo, segundo informações da Infraero. Com o tempo, houve adensamento urbano nos arredores.

Diretor-geral da Associação Brasileira de Táxis Aéreos e de Manutenção de Produtos Aeronáuticos (Abtaer), o comandante Domingos Afonso Almeida de Deus afirma que a maioria dos aeroportos era construída distante das cidades. No entanto, esses locais se tornaram polos de desenvolvimento, atraindo famílias para o entorno.

“Então, áreas que eram de segurança acabaram sendo ocupadas. Isso se tornou comum no Brasil e no mundo. Em Guarulhos, por exemplo, muitas regiões próximas à pista foram invadidas”, relata. 

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Em seis meses, essa foi a segunda queda de uma aeronave na mesma rua; tragédia de ontem deixou três mortos e três feridos 

Medo

Em Belo Horizonte, o medo de acidentes ronda os mais de 57 mil moradores dos três bairros vizinhos ao Aeroporto Carlos Prates. “O temor é recorrente. Hoje caiu na rua e daqui a pouco vai cair em cima das residências”, diz a auxiliar administrativo Ângela Olivetto, de 55 anos. 

Moradora do Caiçara há três décadas, ela relata que, diariamente, sonha com uma aeronave despencando. “Quando passa uma de treinamento, fico com pavor de que caia no meu telhado”, declarou, assustada, após presenciar a tragédia de ontem.

Quem também convive com o pânico é a aposentada Marilene Paolinelli. Ela conta que, nos últimos 41 anos, já assistiu pelo menos sete acidentes aéreos na região. “Em um deles, estava de carro e vi pelo retrovisor. É uma sensação de impotência e pavor”.

A comerciante Ana Baracho, de 64, mora no Carlos Prates e é enfática ao dizer que a situação tem que ser resolvida para evitar novos desastres.

“Estou horrorizada com esse acidente. Aconteceu em frente ao apartamento do meu irmão. É uma situação muito triste e desesperadora. Não pode continuar deste jeito”.

“Para cada um desses acidentes que aconteceram com voos do Aeroporto Carlos Prates há motivos diferentes apontados pelas investigações. O fato de ser um aeroporto-escola não o torna mais perigoso, pelo contrário. Ali, os aviões são muito mais vistoriados. No caso de ontem, o vídeo mostra que o avião perdeu a altitude. Para isso ter acontecido, a hipótese é que alguma coisa no sistema de propulsão possa ter falhado. Mas é preciso aguardar a conclusão da apuração. Possivelmente, o acionamento do paraquedas evitou mais mortes, já que ele teve a função de segurar a aeronave e diminuir o impacto na queda” (José Américo Leão, chefe do Núcleo de Engenharia Aeronáutica da Fumec)

 

Convivência

Chefe do Núcleo de Engenharia Aeronáutica da Fumec, o professor José Américo Leão afirma que o entorno dos aeroportos sempre está sujeito a algum risco.

“O desejável é que essas regiões próximas aos aeródromos não sejam habitadas. Mas isso acontece no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, temos o aeroporto de Chicago, Dallas e vários outros”, conclui.

Demanda

Por dia, 58 pousos e decolagens acontecem no Aeroporto Carlos Prates. Em nota, a Infraero informou que o local “opera dentro dos requisitos de segurança estabelecidos nas normas da aviação civil brasileira”. A empresa diz que lamenta o ocorrido e que está à disposição das autoridades para colaborar com a investigação.

Concessão

Atualmente sob a gestão da Infraero, o Aeroporto Carlos Prates integra o pacote de terminais a serem leiloados pelo governo federal em 2022. A cessão da administração para a iniciativa privada pode levar ao aumento do tráfego aéreo na região. Porém, para esse incremento, é preciso realizar melhorias na infraestrutura, destaca o professor de Direito Aeronáutico Sérgio Mourão, da Fumec. “Um aeroporto não pode aumentar (o tráfego) além da sua capacidade. No caso do Carlos Prates, está dentro do limite. Mas pode haver melhorias na pista e na circulação das aeronaves”.

O docente, que é especialista em segurança pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), ainda diz que o terminal não deve perder a vocação para receber aviões de pequeno porte e voos de instrução. “A história dele vem dos anos 1930, é antiga. Acredito que quem vier a assumir a gestão vai respeitar esse perfil, pois boa parte dos clientes é formada por escolas de aviação”, frisa.

Sérgio Mourão destacou que o Carlos Prates não é perigoso e segue padrões de segurança. “Ainda não se sabe o que de fato provocou o acidente de hoje (ontem), mas não creio que o aeroporto tenha contribuído para a tragédia. O que ocorreu pode acontecer em qualquer outro. A grande maioria das vezes não se deve à plataforma, pode, na verdade, ser falha humana ou mecânica”, observou o professor.