O aprendizado dos universitários da área de saúde da UFMG deve ficar comprometido com o fechamento de 51 leitos do Hospital das Clínicas (HC). Além dos impactos no ensino em cursos como Medicina e Enfermagem, o cronograma das aulas será revisto na unidade, referência em transplantes e tratamentos de doenças raras em Minas.

Por mês, 50 mil consultas e procedimentos são realizados no HC – todos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os leitos desativados são de clínica médica, cirúrgicos e do Centro de Terapia Intensiva (CTI). A medida se deve ao déficit de cerca de 300 funcionários em razão de aposentadorias, exonerações e demissões.

Para a coordenadora do colegiado da Faculdade de Medicina, Taciana de Figueiredo Soares, a situação é dramática e vai obrigar uma reorganização de disciplinas práticas que dependem da estrutura física do hospital. “Afeta os alunos desde o 5° período. São mudanças que interferem muito no aprendizado”.

No mês passado, o Hoje em Dia mostrou que o Hospital das Clínicas fechou 30 leitos em razão do déficit de funcionário. Na segunda-feira, a unidade informou que mais 21 vagas serão desativadas 

O dobro

Em um cenário hipotético, diz Taciana, um paciente, antes acompanhado por dois estudantes, passará a ser monitorado por quatro, além do médico. “Em um primeiro momento, a gente não pensa em reduzir o número de alunos em aulas práticas, mas será preciso uma redistribuição”.

Também haverá impacto nas graduações em Farmácia, Fisioterapia, Odontologia, Terapia Ocupacional, Psicologia, Nutrição, Fonoaudiologia, Gestão em Saúde e Tecnologia em Radiologia. “A Medicina é o carro-chefe, mas esses cursos também serão afetados porque os alunos estão em aprendizado no hospital”.

O Hospital das Clínicas informou que há 535 residentes e 4.063 estudantes que utilizam o local. Em nota, o HC disse que aguarda a chegada de aprovados em um concurso nacional que poderão optar pela unidade.

O Conselho Administrativo do HC reforçou que o problema pode ser resolvido com a abertura de certames. Para tentar agilizar um novo, integrantes do órgão e do Conselho Municipal de Saúde foram a Brasília entregar ofícios aos ministérios da Saúde, Economia e Educação.

A pasta da Saúde informou que o assunto é de responsabilidade da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que administra o HC. Os ministérios da Educação e Economia não se manifestaram. 

Reposição

Em nota, a Ebserh informou que tem feito contratações e reposições em hospitais universitários. Na capital, 183 novas convocações foram feitas e, dessas, 65 respondidas. Médicos, técnicos de enfermagem e enfermeiros devem começar a trabalhar até 6 de setembro. A entidade administra os espaços desde 2012. “Somente para o HC-UFMG, por exemplo, o quadro foi reforçado com mais de 1,6 mil pessoas que substituíram profissionais com vínculos precários e aposentados, além de ampliar o quadro”.

Sem dados

A administração do HC não divulgou quantos pacientes deixarão de ser atendidos devido ao fechamento dos leitos. Questionada, a Secretaria de Saúde de BH garantiu que acompanha a situação. “Até o momento, não houve aumento na demanda por internação na capital”, disse, em nota. Porém, a pasta informou que os gestores do hospital avaliam os casos que necessitam de transferência. 

Secretário-geral do Conselho Municipal de Saúde, Bruno Pedralva é uma das pessoas que foi a Brasília pressionar a abertura de um concurso público. Ele reiterou que não é possível falar, por enquanto, em sobrecarga na rede pública. “Mas, à medida que você fecha leitos de CTI e de cirurgias, a fila para os transplantes aumenta”.

Com Lucas Eduardo Soares