O prefeito de BH, Alexandre Kalil (PSD), disse nesta quarta-feira (8) que a Copasa havia descartado, há cerca de um mês, o risco de desabastecimento de água em Belo Horizonte. A declaração foi dada após a divulgação de um laudo, emitido pela companhia, que indica a possibilidade de rodízio ou racionamento na capital e em outras 14 cidades da Região Metropolitana, por causa da contaminação do rio Paraopeba. Parte do leito foi tomado pela lama que vazou do rompimento da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, e, por isso, a captação está interrompida desde o dia 25 de janeiro.

Nessa terça-feira (7), a Advocacia-Geral do Estado (AGE) acionou a Justiça para que a Vale, empresa responsável pelo desastre, inicie, imediatamente, a captação em trechos do manancial não afetados pelos rejeitos de minério com o intuito de garantir o abastecimento na Grande BH. Questionado sobre o assunto, Kalil declarou que a situação já tinha sido discutida por diversos órgãos municipais e estaduais.

"A Copasa nega. A presidente e um diretor [da Copasa] estavam aqui e nos disseram que esse problema não existiria, que nós não precisávamos nos preocupar. Nos tranquilizaram de uma forma absolutamente impressionante”, revelou o prefeito. Conforme ele, além da presidente da Copasa, Sinara Meireles Chenna, e do outro diretor da companhia, estiveram na reunião representantes da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros. 

Procurada pela reportagem do Hoje em Dia para comentar o caso, a Copasa informou que "o abastecimento da capital e dos municípios atendidos pela Companhia na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) está sendo feito pelas represas Rio Manso, Serra Azul e Vargem das Flores e pelo rio das Velhas que estão com capacidade para atender a população por 20 meses, ou seja, até o início do ano de 2021". Mas que "as ações de projeto e execução de obras de nova captação à montante do trecho impactado do rio, precisam ser iniciadas de imediato, para que haja alternativa estruturante apta a funcionar captando água do rio Paraopeba em 2020, e assim, evitar que os reservatórios cheguem em níveis críticos para operação no ano 2021", esclareceu.(Leia baixo a nota completa)

A Vale, por sua vez, ressaltou que vem mantendo reuniões periódicas com a Copasa e com outras autoridades "para discutir as medidas necessárias à continuidade do abastecimento nos municípios afetados pelo rompimento da barragem de Brumadinho, as quais vem sendo implementadas desde o ocorrido". A empresa não quis se manifestar sobre a ação do AGE e declarou que só irá se posicionar na próxima audiência judicial do caso.

A assessoria do Tribunal de Justiça de Minas Gerais informou que será realizada nesta quinta (9), às 14h, nova audiência de conciliação entre as instituições do sistema de Justiça e a Vale, na 6ª Vara da Fazenda Pública Estadual e Autarquias, em Belo Horizonte, com a intenção de reparar os danos causados pela tragédia em Brumadinho. A PBH foi intimada a participar da nova audiência de conciliação para se manifestar sobre o risco de desabastecimento de água, segundo o TJ. 

Sem água

Nesta quarta-feira, o Hoje em Dia mostrou que moradores de 15 cidades da Grande BH poderão ficar sem água. Esse risco consta em laudo elaborado pela Copasa, após a suspensão da captação no rio Paraopeba. Diante do risco iminente, o governo de Minas pressiona a mineradora a adotar medidas emergenciais.

O estudo feito pela Copasa aponta o comprometimento do curso d’água em decorrência do desastre e as implicações para o abastecimento tanto na capital quanto em várias cidades vizinhas. Desde 25 de janeiro a companhia não faz a captação no manancial para levar água às casas. 

O sistema Paraopeba era responsável por atender não apenas a uma parte da população de Belo Horizonte, mas também a outros 14 municípios, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA): Betim, Contagem, Esmeraldas, Ibirité, Igarapé, Juatuba, Mário Campos, Mateus Leme, Pedro Leopoldo, Ribeirão das Neves, Santa Luzia, São Joaquim de Bicas, Sarzedo e Vespasiano.

“Abrange mais de 50% da água consumida na região metropolitana”, afirma Winston Caetano de Souza, Presidente do Comitê da Bacia do Rio Paraopeba. Ele esclarece que os reservatórios de Rio Manso e Várzea das Flores – ambos abastecidos pelo rio – estão com níveis razoáveis. “Mas sabemos que, se o período de estiagem for longo, esse nível pode ser reduzido drasticamente e teríamos um cenário de caos”.

Winston Souza também reforçou que a obra de captação a ser feita pela Vale também não é simples. “Precisamos saber se haverá tempo hábil”, pondera.

*Com Raul Mariano

Confira a nota da Copasa:

"A Copasa esclarece que o abastecimento da capital e dos municípios atendidos pela Companhia na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) está sendo feito pelas represas Rio Manso, Serra Azul e Vargem das Flores e pelo rio das Velhas que estão com capacidade para atender a população por 20 meses, ou seja, até o início do ano de 2021.

A Companhia informa que o Governo de Minas Gerais, por meio da Advocacia-Geral do Estado, impetrou ação  junto à 6ª Vara da Fazenda Estadual da Comarca de Belo Horizonte, para que seja determinado que a empresa Vale inicie, de imediato, nova de captação de água no rio Paraopeba, em trecho não afetado pelo rompimento da Mina Córrego do Feijão, e adote medidas preventivas no sistema do rio das Velhas.

Desde a data do rompimento da barragem em Brumadinho, no dia 25 de janeiro, a Copasa está impossibilitada de utilizar a captação de água do Paraopeba, em razão da lama que atingiu o rio. O abastecimento naquele sistema está sendo feito pelos três reservatórios (Rio Manso, Serra Azul e Vargem das Flores). As ações de projeto e execução de obras de nova captação à montante do trecho impactado do rio, precisam ser iniciadas de imediato, para que haja alternativa estruturante apta a funcionar captando água do rio Paraopeba em 2020, e assim, evitar que os reservatórios cheguem em níveis críticos para operação no ano 2021.

Na ação movida são requeridas outras medidas a serem executadas pela Vale para assegurar o abastecimento em outros municípios afetados pela tragédia, Paraopeba e Caetanópolis.

Além de exigir que a Vale assuma medidas emergenciais no sistema do rio Paraopeba, o Governo de Minas também solicita, na ação, que a empresa realize medidas preventivas para impedir riscos de danos ao sistema rio das Velhas, em Nova Lima, por existirem barragens de rejeito da Vale localizadas na bacia deste rio, que estão classificadas com nível de alerta 3, o que coloca a captação de água em risco no caso de eventos de rompimento das barragens dessas minerações.

É requerido ainda que a Vale providencie medidas de contenção e proteção no sistema rio das Velhas, em, no máximo, 60 dias. A ação exige, também, que a Vale crie outras alternativas de abastecimento, implante adutoras de captação de água, dentre outras ações". 

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