O professor Michel Marie Le Ven, do Departamento de Ciência Política (DCP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), morreu nesta sexta-feira (22), em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em decorrência de insuficiência cardíaca e respiratória. Ele tinha 89 anos e lutava há algum tempo contra o Mal de Alzheimer. 

O corpo será velado neste sábado (23), das 7h30 às 9h, com a presença apenas de familiares, devido aos protocolos para combate da Covid-19, e será enterrado às 10h30, no Cemitério da Paz, no bairro Caiçara, em BH.

Nascido em Plouguernout, no Norte da França, Le Ven, então padre jesuíta, chegou a Belo Horizonte em 1965 para atuar na Igreja do Horto, na Zona Leste da capital, onde seu trabalho inspirado na Teologia da Libertação chamou a atenção do regime militar. Em 1968, dias antes da instauração do AI-5, ele foi preso acusado de práticas subversivas. 

O episódio dos “padres franceses” abriu uma crise entre a Igreja Católica e a ditadura. Le Ven e os demais religiosos foram soltos apenas no ano seguinte. Em 2016, o professor publicou o livro Memórias vivas de 1968, no qual resgata os acontecimentos daquele ano. Em sua avaliação, a prisão dos clérigos tinha o objetivo de desarticular jovens lideranças e a própria ala progressista da Igreja Católica.

No início dos anos 1970, ele realizou pesquisas pioneiras sobre as classes populares em favelas de Belo Horizonte. Em 1975, Le Ven ingressou como professor do DCP. No ano seguinte, também na UFMG, obteve o título de mestre. Em 1978, doutorou-se pela USP.

Como professor da UFMG, Michel Le Ven trabalhou para aproximar a academia do mundo do trabalho e dos movimentos sociais. Ele foi um dos idealizadores do Laboratório de Estudos Urbanos e, mais tarde, do Núcleo de Estudos sobre o Trabalho Humano (Nesth). “Le Ven sempre esteve ao lado de quilombolas, indígenas, trabalhadores, enfim, das pessoas que têm seus direitos desrespeitados. Desempenhou, junto com outros religiosos católicos, papel fundamental na formação da consciência popular”, diz o professor Carlos Roberto Horta.

Nos últimos anos de vida, ele morou em um sítio em Ribeirão das Neves. “Ele adorava BH, Neves e a UFMG, que foi a sua segunda casa. Sempre falou da UFMG com muito orgulho”, explica a filha Mônica Le Ven.