A notícia de que um corpo inteiro foi resgatado em Brumadinho, mais de quatro meses após o rompimento da barragem, surpreendeu até mesmo os militares do Corpo de Bombeiros que trabalham nas buscas e os peritos empenhados em identificar os cadáveres. A conservação do corpo era tamanha, que foi possível identificar com clareza uma tatuagem no ombro direito da vítima. Mas, depois de tanto tempo, como um corpo que estava submerso na lama, a nove metros de profundidade, foi encontrado assim?

O tenente Pedro Aihara, porta-voz do Corpo de Bombeiros em Minas, explicou que existe uma condição específica em que rejeitos de minério ajudam na preservação do corpo. "Esse corpo estava numa localidade onde antes existia uma pilha de minério já beneficiado para embarque nas locomotivas", contou. 

A área, conhecida como Terminal de Carga Ferroviário (TCF), é o ponto onde o minério é transferido para os vagões. "No momento em que o corpo bateu na estrutura, nessa pilha de minério, ele acabou não sendo carreado tão para frente e, por isso, a gente acredita que tenha se mantido em uma condição mais adequada de preservação", esclareceu o tenente.

Aihara acrescentou que os militares perceberam que todos os corpos localizados em áreas com maior concentração de minério estão mais conservados. 

Identificação

Logo depois que o corpo chegou ao Instituto Médico Legal (IML) de BH, a Polícia Civil montou uma força-tarefa e conseguiu identificar a vítima em menos de quatro horas - o cadáver deu entrada às 19h e, às 23h, os peritos já sabiam de quem era. A vítima é um homem de 42 anos que trabalhava como terceirizado na Vale.

A tatuagem, contudo, não foi crucial para o reconhecimento, pois os familiares da vítima não haviam contado sobre o desenho. Descartada a primeira tentativa, os peritos fizeram exames nas digitais do homem, mas a análise não foi conclusiva. 

Então, os especialistas partiram para exames da arcaria dentária, método tão eficiente quanto a realização de um exame de DNA. De acordo com o Superintendente de Polícia Técnico-Cientifica, Thales Bittencourt, 24 vítimas da tragédia foram reconhecidas por meio deste método. Ele contou que há no IML, atualmente, 162 segmentos em análise.

Buscas

As buscas em Brumadinho entraram nesta quarta no 132º dia e não têm prazo para encerramento. Mais de 150 militares e 100 máquinas pesadas estão empenhados no trabalho que, conforme o tenente Pedro Aihara, atingiu índices de localização surpreendentes em se tratando de desastres.

Em Brumadinho, a taxa de localização é de 91% - 24 vítimas seguem desaparecidas e 246 foram encontradas. Em Nova Iorque, quando houve o atentado no Word Trade Center, em 2001, somente 60% dos corpos foram encontrados. E lá, segundo Aihara, a área corresponde a 10% da de Brumadinho e os escombros representam 1/4 do volume de lama que vazou da barragem da Vale.

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