De uma lista que conta com cerca de 300 espécies animais ameaçadas de extinção em Minas Gerais, 33 delas são endêmicas, ou seja, só existem no Estado. A situação é grave porque muitos dos locais que estes animais habitam não contam com nenhum tipo de proteção legal ou não são considerados áreas de preservação ambiental. Ou seja, se estes ambientes forem degradados, os animais ameaçados de extinção que ali estão irão desaparecer do planeta. 

O levantamento destas áreas e espécies endêmicas foi feito pela Fundação Biodiversitas, que chegou ao total de 27 locais, chamados sítios-BAZE (Sítios da Aliança Brasileira para Extinção Zero), responsáveis por abrigar 33 espécies em risco de extinção em Minas Gerais.  

"Infelizmente, alguns desses locais são desprotegidos e não contam com estratégia de proteção formal. Outros sítios até possuem algum tipo de proteção, mas ela não é tão efetiva como deveria, por exemplo, uma área de extrativismo que é também uma reserva, ou seja, ainda existe um impacto humano sobre aquela área", explica a coordenadora do Programa de Extinção Zero da Biodiversitas, Marina Schmoeller.

MapaLocalização dos 27 sítios em Minas Gerais onde vivem 33 espécies ameaçadas de extinção

Na contagem da Fundação, somente sete sítios contam com proteção ambiental, e os outros 20, são considerados desprotegidos ou apenas parcialmente protegidos. 

Veja abaixo, cinco espécies que estão nesta situação:

1. Entufado-baiano: ave rara encontrada somente nas cidades de Bandeira e Jordânia, na região do Jequitinhonha e Mucuri, e no município de Macarani, na Bahia. 

2. Aparasphenodon pomba: um tipo de perereca que pode ser extinta automaticamente caso a sua única casa – uma mata na cidade de Cataguases, na Zona da Mata – seja completamente degradada.

3. Epiperipatus paurognostus: espécie de verme de veludo encontrado somente em Caratinga, na região do Rio Doce. 

4. Trichomycterus novalimensis: peixe da família Trichomycteridae, popularmente conhecida por espécies como peixes-gatos-parasitas, bagre-mole, cambeva etc. Descoberto em Nova Lima, o animal foi batizado em homenagem ao município e só existe por lá, no sítio-BAZE de Córrego da Mutuca. 

5. Eukoenenia sagarana: tipo de palígrado, uma ordem de aracnídeos, descoberta em Cordisburgo - daí o nome "sagarana" em referência a um livro de Guimarães Rosa, também nascido em Cordisburgo. A espécie só existe na Gruta Morena, em Cordisburgo, local de forte movimentação turística. 

A denominação dos sítios-BAZE aconteceu somente no fim do ano passado, quando o Ministério do Meio Ambiente publicou uma portaria identificando estes locais em todo o país e chegando ao total nacional de 146 sítios. A lista completa dos locais e espécies que habitam somente neles pode ser conferida clicando aqui. 

Um dos animais da lista acima, a "perereca pomba" vive em um fragmento de floresta de apenas 1,36 km², fora de Unidade de Conservação e onde também não há áreas protegidas próximas. A situação do local é alarmante, uma vez que sua extensão já está bastante modificada, com somente 4,6% remanescentes de vegetação nativa e diminuindo cada vez mais, com perda recente de florestas.

Isso significa que o simpático e minúsculo anfíbio – tem cerca de 60 milímetros de comprimento e pintinhas brancas pelo corpo – pode estar com os dias contados.

Perereca pomba"Perereca pomba" só ocorre em mata de 1,36km² em Cataguases; se vegetação for degradada, ela será extinta

A ponta do iceberg

As 33 espécies em situação mais crítica no Estado, por estarem restritas a locais específicos, são apenas a ponta do iceberg na situação alarmante da fauna mineira em risco de extinção. No total, são pelo menos 300 espécies ameaçadas vivendo em Minas Gerais. Mas, como o último diagnóstico foi feito há quase 10 anos, este número pode ser ainda maior. É que a lista vigente data de 2010, quando houve uma deliberação normativa do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) aprovando o documento. Desde então, o Estado não faz um balanço de sua fauna. 

Mas no próximo ano, essa lista deve passar por uma atualização. Além disso, os órgãos ambientais estão concentrados em um projeto para identificar as áreas prioritárias do Estado para a conservação da biodiversidade e recursos hídricos, levando em consideração as espécies ameaçadas. 

Confira abaixo 10 espécies da lista de 300 animais ameaçados de extinção em Minas: 

1. Onça-pintada (Carnivora Felidae Panthera onca)

2. Cachorro-do-mato-vinagre (Carnivora Canidae Speothos venaticus)

3. Pato-mergulhão (Anseriformes Anatidae Mergus octosetaceus Vieillot)

4. Bugio-marrom (Primates Atelidae Alouatta guariba guariba)

5. Macaco-prego-de-peito-amarelo (Primates Cebidae Cebus xanthosternos Wied-Neuwied)

6. Rato-do-mato (Rodentia Cricetidae Euryoryzomys lamia Thomas)

7. Curió (Passeriformes Emberizidae Sporophila angolensis)

8. Gavião-Real (Falconiformes Accipitridae Harpia harpyja)

9. Piabanha (Characiformes Characidae Brycon devillei)

10. Borboleta (Lepidoptera Nymphalidae Hyalyris fiammetta)

Políticas em construção

De acordo com o gerente de Proteção à Fauna Aquática e Pesca do Instituto Estadual de Florestas (IEF), Leandro Carmo Guimarães, os órgãos estaduais já estão se mobilizando para desenvolver políticas públicas de proteção às espécies. O mapeamento dos habitats das espécies criticamente ameaçadas vai permitir a criação de políticas específicas para estas áreas.

"Vamos ter que batalhar a criação de unidades de conservação, incentivo de boas práticas, direcionamento de fiscalização e atividades de conscientização junto à população", explica.

O projeto de identificação das áreas prioritárias de Minas para o direcionamento de políticas públicas de conservação é custeado, em parte, com recursos do Estado, e outra parte, com recursos oriundos de uma cooperação com o governo alemão. 

Segundo Guimarães, no topo da lista de principais ameaças às espécies está justamente a depredação do habitat. "O número de espécies ameaçadas está crescendo porque o conhecimento a respeito delas também tem aumentado. As principais ameaças a esses animais são a perda ou fragmentação do habitat, o desbarramento de rios no caso de espécies aquáticas, a poluição e a atividade de caça em excesso", enumera.

Para que uma espécie seja colocada na lista de risco, são observados alguns critérios, como por exemplo, se a população de determinada espécie sofreu uma redução igual ou superior a 80%. Outro critério é se a espécie tem abrangência geográfica inferior a 100 km². Ainda conforme Guimarães, é possível que algumas espécies de animais já tenham passado pelo Estado e desaparecido completamente sem que sequer tenhamos notado a existência delas. 

Onça-pintada
Animal símbolo do Brasil, onça-pintada é uma das espécies que consta na lista de extinção em Minas Gerais 

O cachorro-vinagre

Um dos animais que constam na lista das espécies criticamente em perigo é o cachorro-do-mato-vinagre, que teve o seu último registro feito em 2016, segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).

Antes disso, em 2012, ele foi visto em uma rara aparição em Minas Gerais, quando já estava considerado extinto, uma vez que, até então, não havia qualquer registro ou relato sobre sua presença em 170 anos.

Cachorro-vinagre

Antes de dar as caras em Minas Gerais, cachorro-vinagre não era visto há 170 anos e era considerado extinto 

O que fazer ao se deparar com uma espécie em risco

Parece óbvio, mas não manipular, interferir ou promover interação com um animal em risco de extinção são as principais premissas ao avistar uma espécie rara. Por outro lado, um registro básico, como uma fotografia de celular, pode ajudar a documentar a aparição do bicho.

O canal oficial para este fim é o Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira, gerido pelo ICMBio: sibbr.gov.br. Clicando aqui, é possível visualizar, ainda, diversas iniciativas em relação ao tema.

Outro caminho é entrar em contato com universidades, institutos de pesquisa e ONGs, como a Fundação Biodiversitas, para encaminhar o registro. No caso do cachorro-vinagre, por exemplo, a entidade referência foi a procarnívoros.org.br, especializada em mamíferos carnívoros.

Há ainda o Sistema Urubu, portal que permite colaboração direta de usuários, mas que é destinado ao registro de atropelamentos de animais silvestres. A plataforma foi criada por um grupo de pesquisa em Ecologia de Estradas da Universidade Federal de Lavras.

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