Nove horas da manhã. O cabo mineiro João Batista era um dos milhares de pracinhas que estavam em posição de combate, próximo a Monte Castelo, norte da Itália, quando uma voz conhecida começou a cantar, iniciando a programação da Rádio de Berlim: “Não há, ó gente, ó não/Luar como esse do sertão”.

A famosa música de Catulo da Paixão Cearense, usada pelos inimigos como uma tática de guerra psicológica, durante a Segunda Guerra Mundial, “martirizava a gente, depois de mais de um ano longe de casa, naquele país estranho, onde a neve chegava a 15cm de altura”, nas palavras do ex-combatente, hoje com 93 anos.

Esse ambiente inóspito para os 25 mil pracinhas em solo italiano é revivido no filme “A Estrada 47”, cartaz a partir dessa quinta-feira (7) nos cinemas. Com Daniel de Oliveira e Júlio Andrade no elenco, trata-se da primeira produção de ficção sobre a participação da Força Expedicionária Brasileira.

Mineiros repassam participação dos ‘brasiliani’ na Itália, mote de “A Estrada 47”

João Batista – Da Itália, onde esteve recentemente, ele trouxe bandeirinhas do Brasil e da FEB desenhadas por estudantes, que também cantaram o hino nacional brasileiro (Cristiano Machado/Hoje em Dia)

 

Pernas de Pau

Outro soldado mineiro, Mário Secundino Barbosa também lembra do frio intenso, que, misturado à chuva, tornou-se um dos maiores obstáculos dos brasiliani. No norte da Itália, ele perdeu muitos colegas, principalmente para as minas, artefatos que os quatro protagonistas de “A Estrada 47” têm como missão desativar.

“Os alemães colocaram minas em lugares nos quais sabiam que íamos passar. Nossos soldados desativavam e abriam uma trilha, mas quem saía desse espaço, indo para o que chamávamos de ‘terra de ninguém’, corria esse risco”, recorda Mário, que era trabalhador rural em Esmeraldas quando foi convocado.

João Batista observa que havia dois tipos de minas – uma para destruir as esteiras dos tanques, paralisando o seu avanço, e outro para criar os “pernas de pau”. “Eles (alemães) não queriam o inimigo morto, mas ferido. Morto ninguém vê. Já o ferido ajuda na guerra psicológica”, sublinha.

Explosão de Camelos

A região abrigava um criadouro de camelos, animais que também foram vítimas das minas. “No acampamento, quando havia uma explosão à noite, todo mundo gritava ‘mais um camelo’. Mas certa vez, o primeiro tenente Márcio Pinto, que era de Minas e um ótimo jogador de futebol, não voltou, por ter passado por uma trilha que não estava limpa. Encontraram apenas a cabeça e um braço. A partir daí, a cada explosão, todos gritavam ‘mais um tenente’”, registra o cabo.

Tanto João Batista como Mário fizeram muitos amigos no front. Sentiam as perdas dos colegas, especialmente aqueles com quem se dividia um foxrole (buracos feitos no chão para passar a noite e servir de proteção durante o combate). “Mas não era tanto (sofrimento) porque tínhamos alguma preparação psicológica. O que nos fazia seguir em frente era pensar que logo chegaria a hora de ir embora”, relata João Batista.

Na última semana, João Batista retornou mais uma vez da Itália: desta vez, foi homenageado ao lado de ex-combatentes. Percorreu as cidades envolvidas nas batalhas e recebeu o carinho dos italianos, que não paravam de chamá-lo de “libertador”.

Do preconceito ao reconhecimento foram necessários 70 anos

Mineiros repassam participação dos ‘brasiliani’ na Itália, mote de “A Estrada 47”

“A Estrada 47” – Coprodução entre três países, filme tem no elenco, além dos brasileiros Daniel de Oliveira, Thogun, Teixeira, Francisco Gaspar e Júlio Andrade, o alemão Richard Sammel, o português Ivo Canelas e o italiano Sergio Rubini (Europa/Divulgação)

 

A deserção é outro tema importante em dentro da narrativa do diretor Vicente Ferraz no longa “A Estrada 47”. Na sala de sua casa, no bairro Caiçara, onde as paredes estampam certificados e diplomas de sua participação na Segunda Guerra, Mário Secundino cita o caso de um amigo que, durante a preparação no Rio de Janeiro, sempre afirmava que não embarcaria para a Itália.

“Lembro bem dele porque os nossos nomes eram parecidos, o que sempre gerava alguma confusão. Ele era Mário Quintino Barbosa e falava que iria desertar. Até que, no dia em que embarcamos, já estávamos em alto-mar, quando começaram a procurá-lo no navio. E alguém reportou que ele havia suicidado, jogando-se do navio”, conta o ex-soldado.

Mário fez parte da última leva que engrossou as fileiras da FEB na Itália. Sua função era municiar as metralhadoras e os morteiros. Por isso nunca ficou tête-à-tête com um alemão. “Na linha de frente mesmo, carregando um fuzil, só fiquei três meses”, afirma Mário, que, por ter nascido e sido criado na roça, como mesmo frisa, sabia usar uma espingarda.

Relíquias

O fuzil que levaram na bagagem era uma arma inapropriada, que fazia barulho ao ser carregada. Dos aliados americanos receberam uma metralhadora automática e silenciosa, além de muita instrução, roupas e alimentação.

“Se não fossem eles, teríamos morrido de frio”, assinala Mário, que ainda guarda, em casa, a calça, o cinto e uma espécie de máscara que aquece a cabeça.

João Batista, por sua vez, reservou um espaço num dos quartos de seu apartamento, no bairro Coração Eucarístico, para relembrar a passagem pela Itália. Na parede, estão dependurados o capacete de combate, várias fotografias e um paletó usado pelo Exército norte-americano.

Recomeço

A explicação para só agora, 70 anos depois, um filme brasileiro reconhecer a bravura dos pracinhas está no preconceito que eles sofreram assim que retornaram ao país. “Achavam que a gente era louco, com traumas de guerra. Somente na Constituição de 1988 é que fomos amparados”, ressalta João Batista, que foi chamado para trabalhar no Ministério da Fazenda.

Já Mário abriu um armazém em Belo Horizonte. Sorte que não foi compartilhada por todos os pracinhas. “Ao desembarcarmos no Rio de Janeiro, em agosto, permanecemos na cidade para o desfile de 7 de setembro e recebemos um determinado valor em dinheiro. Não era muito, mas já dava para começar a trabalhar, mas teve gente que gastou tudo ou foi roubado”, recorda Mário.