Disseram que o site, que tanto travou devido à sobrecarga de visitas, funcionaria melhor na madrugada. Patricia não hesitou: despertou às 4h, junto com o apito do celular, ligou o computador e começou a tarefa que parecia impossível. Checou dados, avaliou documentos e, depois de um mês de tentativa, conseguiu aprovar o auxílio de R$600. A emergência finalmente chegará a quem é devida. Mas não era a Patricia.

É que, desde o início da pandemia de Covid-19, quando centenas de pessoas deixaram de poder trabalhar e se sustentar, a educadora social Patricia de Souza Santos, de 44 anos, moradora da Vila Antena, no Aglomerado Morro das Pedras, na região Oeste de Belo Horizonte, decidiu que ajudaria no processo de cadastro do auxílio emergencial aqueles que não têm acesso à internet, não têm celular, ou não são alfabetizados.

"Enquanto eu não consigo, eu não paro. Esse último caso deu trabalho, mas eu gosto muito de ajudar. O CPF dela estava errado. Eu tive que regularizá-lo. Tem muitos anos que ela está desempregada. Na hora que eu consegui, foi uma felicidade danada. Hoje eu levei ela ao banco e ela tirou o dinheiro", contou, se referindo à ajuda que lhe fez acordar de madrugada e ganhar uma reclamaçãozinha em tom de brincadeira do marido, Maximiliano de Jesus: "você não dorme mais, é?".

Patricia de Souza Santos

Na imagem, Patricia e os amigos e familiares

Ao todo, desde que teve início o processo de cadastro para recebimento do auxílio emergencial pela Caixa Econômica Federal, Patricia já conseguiu ajudar seis pessoas - todas moradoras da Vila. "Algumas são analfabetas, não sabem mexer. Algumas não têm celular. Algumas eu conheço, outras não. Se me pedir, eu faço. É só bater no portão, me chamar", disse. A ajuda é completa: ela avalia os documentos, cadastra, acompanha a situação e corrige dados. 

Solidariedade o tempo todo

Há nove anos, Patricia é funcionária da Associação do Pequeno Cristo, entidade de direito privado sem fins lucrativos que atende, em meio período, cerca de 45 crianças e adolescentes, com idades entre seis e 14 anos, em situação de risco e vulnerabilidade social, moradores do Morro das Pedras. A casa fica no Grajaú e aceita doações.

"A gente acolhe as crianças, ajuda no que precisa. Sou educadora social, mas se é preciso fazer a faxina, todos pegamos e fazemos. Se precisa ajudar na cozinha, ajudamos, fazemos. São crianças que estão passando por necessidade e ficam lá no horário que não estão na escola. Ajudá-las é a melhor coisa que tem. Como eu também moro no Morro, eu sei um pouquinho da vida de cada uma delas", relatou.

Patricia não vai parar enquanto não fizer ainda mais pelo amigo, vizinho ou desconhecido. Vida longa à Patricia.