Atrás da barragem da mina do Gongo Soco, no município de Barão de Cocais, na região Central de Minas, dois homens rezam em silêncio na única capela do povoado de Socorro. Outro lugar que concentra uma dezena de moradores remanescentes é um bar do distrito. Enquanto tomam a saideira, eles deliberam se é ou não a hora de deixar o local e seguir as recomendações de segurança do município. A qualquer momento, a contenção de minério pode se romper e arrastar com a lama a história da vila, que completa 300 anos no mês de agosto. 

Policiais conversam com os moradores e tentam convencê-los a evacuar a zona rural. A princípio, não estão autorizados a usar a força, somente a lábia. No entanto, o grupo se mostra resistente porque tem medo de sair das casas e ter os pertences roubados. O dono do boteco, Maurício Pinto Coelho, de 53 anos, já tirou a família da região. Agora, recebe ligações do filho, que pede que ele vá para o hotel que foi encaminhado pela Vale, em Caeté, cidade vizinha. 

“Estamos aqui desde 2 horas da manhã. Pessoal me pediu para abrir o bar para pegar um maço de cigarro, tomar um café. Fiquei por conta dos meus amigos. Já conversei com todo mundo, daqui a pouco vou pegar meu carro e vou sair”, diz. Mesmo assim, segue ressabiado: “nós já não temos nada, o maior problema é irmos embora, a barragem não romper, é voltarmos para casa e terem roubado tudo”. 

A maior parte dos homens reunidos é, inclusive, da mesma família. O pedreiro e líder comunitário do povoado, Adil Gonçalves Gomide, de 57 anos, os denomina de “guardiões de Socorro”. Ele é um dos mais resistentes à saída. Quando vê que os amigos estão sendo convencidos, corre para a igreja para pedir a ajuda da padroeira Mãe Augusta do Socorro. “Tenho muita fé nela que essa tragédia não vai acontecer. Eles [a Vale] vão esvaziar a barragem e manter nossa história linda”, afirma, esperançoso. 

As casas do distrito já estão vazias. Fora os jardins e flores bem cuidados, chega a parecer que há dias a população saiu do local. Sozinho, do alto de um morro, em uma distância segura do povoado, o vigia Antônio da Conceição Coelho, de 51 anos, guarda, de longe, a casa que construiu e morou praticamente a vida inteira. 

Ele não quis ficar em Socorro como os vizinhos, mas foi de moto até o ponto alto de uma das estradas que dá acesso à vila e fica de lá observando o movimento da cidade. “Não fiquei no povoado, porque, se a barragem romper, minha casa vai embora. Estou até agora sem comer, sem café da manhã. Não tem como ir lá cozinhar. Mas, fico aqui olhando, com medo de entrarem na construção e me saquearem”, conta.  

Mulher, pais e filhos de Antônio, assim como os demais familiares dos “guardiões de Socorro” esperam por ele em hotéis da região de Barão de Cocais. “Trabalho de noite, na hora que cheguei aqui já não tinha ninguém mais. Fico aqui, tenho medo desse trem estourar e destruir tudo. Mas, se acontecer, vou fazer o quê também, né?”

 A PM estima que 500 pessoas moram no local.

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Confira as imagens de Barão de Cocais: