Sair de casa, de carro ou de ônibus, seja para trabalhar, estudar, jantar ou ir à academia, só para ficar em alguns exemplos, não é tarefa fácil para quem mora no entorno dos bairros Belvedere, Olhos D’Água e Vila da Serra, em Belo Horizonte e Nova Lima. O trânsito intenso da região, principalmente nos horários de pico, prejudica atividades corriqueiras. Os relatos são dos próprios moradores. A rotina, que já lança um alerta às autoridades, pode piorar ainda mais.
 
Um Projeto de Lei (PL) que reduz a área da Estação Ecológica do Cercadinho e abre espaço para a instalação de empreendimentos imobiliários e comerciais nesses bairros, preocupa muitos moradores. A possibilidade de adensamento urbano atinge dois terrenos que seriam suprimidos, totalizando 57 hectares. Um entre o BH Shopping e o trevo do Seis Pistas e outro no entorno do bairro Olhos D’Água.
 
“Não dá para aceitar isso. Trabalho na Savassi e para chegar em casa, diariamente, é um caos. Nesse período de chuva é ainda mais complicado. A região não suporta novas construções”, afirma a fisioterapeuta Marcela Viana, de 30 anos, moradora do Belvedere. Só no bairro dela circulam nada menos do que 50 mil veículos por dia.
 
As palavras da advogada vão ao encontro do pensamento do estudante de direito Pedro Carvalho, de 21. Morador do bairro Sion, ele estuda em uma faculdade no Vila da Serra. O universitário precisa percorrer, de carro, pouco mais de 6 quilômetros, mas já perdeu a conta de quantas vezes ficou preso no trânsito.
 
“É impressionante. Na avenida Nossa Senhora do Carmo fica tudo parado. A obra do Portal Sul até melhorou um pouco a situação, mas não resolveu o problema”, avalia Pedro. O estudante se refere às intervenções viárias para desafogar o trânsito no Belvedere e facilitar o acesso à Nova Lima. 
 
Uma alça ligando a BR-356 à MG-030, no sentido Rio de Janeiro/Nova Lima, e uma trincheira no sentido Savassi/Nova Lima foram feitas como medidas compensatórias de empreendimentos da região. O projeto ainda prevê dois viadutos, nos sentidos Savassi/Nova Lima e Nova Lima/Rio de Janeiro, mas não há prazo definido.
 
Estava na gaveta
 
Apresentada há dois anos, a proposta inicial de redução da área da Estação Ecológica do Cercadinho visava, apenas, flexibilizar o terreno para a realização de obras de melhorias viárias no bairro Belvedere e no acesso a Nova Lima. Mas, sem votação na época, o projeto de lei continuou em uma espécie de “limbo” no Legislativo mineiro, voltando à tona agora. 
 
Entenda o caso
 
Aprovado na última quinta-feira pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia, o Projeto de Lei 3.436/12 reduz a área da Estação Ecológica do Cercadinho.
 
Foi dada a justificativa de que a mudança visava propiciar obras de melhoria na acessibilidade no entorno do Belvedere.
 
Porém, o intuito principal passou a ser a devolução de terras não indenizadas.
A área atingida na estação ecológica estaria avaliada em R$ 1 bilhão.
 
A alteração no espaço verde abre brechas para novos empreendimentos comerciais e imobiliários na região, considerada de grande relevância hídrica para a capital.
 
Relator da comissão, o deputado Gustavo Corrêa(DEM) reconhece a possibilidade de adensamento urbano, mas ressalta que esses futuros investidores precisariam apresentar contrapartidas.
 
Já o também parlamentar Fred Costa (PPS) afirma que nada justifica a flexibilização de uma área de conservação ambiental.