A morte de um adolescente espancado dentro de uma escola, em Belo Horizonte, escancara o medo que muitos alunos e professores vivem em sala de aula. Neste ano, Minas Gerais registrou mais de 21 mil crimes nas instituições de ensino. 

O número é menor que o do ano passado, mas a média de 70 casos por dia de lesões corporais, furtos e roubos, dentre outros, em 2018, alertam para a necessidade de medidas mais eficazes para evitar tragédias.

Agredido a socos e pontapés durante uma partida de futebol no Instituto de Educação de Minas Gerais (Iemg), em 14 de novembro, Luiz Felipe Siqueira morreu ontem, faltando apenas quatro dias para completar 18 anos. Com traumatismo craniano, ele passou por três cirurgias, mas não resistiu à gravidade dos ferimentos.

A família do suspeito da agressão afirma que o rapaz é tranquilo e sempre apresentou boas condutas. Conforme a advogada Laura Figueiredo, o jovem tem um déficit de aprendizagem

A recorrência de registros sobre o mau comportamento do colega suspeito de atacar o estudante – ao menos 20 desde que o rapaz, de 18, começou a estudar no local, em 2005 – já indicava um risco. Essa é a avaliação de Luís Flávio Sapori, coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública da PUC Minas.

Segundo ele, quando casos chegam a esse ponto, a resolução não pode se restringir apenas ao ambiente escolar. “Era hora de se resolver externamente, fazendo um boletim de ocorrência, por exemplo. Reclamamos da interferência da polícia no espaço acadêmico, mas nessa situação era preciso”, observou.

Em nota, a Secretaria de Estado de Educação (SEE) informou que o Iemg chegou, por mais de uma vez, a solicitar aos pais do suspeito a transferência dele da instituição, sem sucesso. Para a criminalista Maíra Garcia, membro do Instituto de Advogados de Minas Gerais (IAMG), a questão já pedia o acionamento do Conselho Tutelar. "Parece que a família já tinha perdido o poder de governar. Nesses casos, era urgente uma providência".

Luís Flávio Sapori  diz, ainda, que a tragédia no Iemg vai promover um amplo debate sobre a criminalidade em unidades de ensino. “Fenômeno causado, entretanto, por conta do perfil de crianças e adolescentes que estão chegando a esses locais. É importante frisar que não é a escola que está ficando violenta. As variáveis psicológicas e familiares estão impactando esse cenário nos últimos 30 anos”, explicou Sapori.

Habitual

Nesse contexto, brigas entre colegas são comuns, atestam os estudantes. Que o diga um adolescente de 15 anos, também aluno do Instituto de Educação e que pediu para não ser identificado. Segundo ele, casos de agressões verbais são frequentes. “É preocupante”, lamenta.

Atentar-se a brincadeiras que podem gerar conflitos e a pequenos gestos de violência, como empurrões e xingamentos, são algumas medidas para combater a violência nas escolas, frisa Valéria Cristina de Oliveira, professora da Faculdade de Educação da UFMG.

A especialista afirma que um dos atos que podem desencadear episódios violentos nas instituições de ensino é o bullying. “Todo tipo de intervenção, seja no âmbito coletivo ou individual, é muito importante. É preciso identificar os problemas que cercam o convívio dos alunos para oferecer respostas capazes de ao menos minimizar os problemas”, explicou.

Luiz Felipe Siqueira estudante IemgLuiz Felipe Siqueira iria completar 18 anos na próxima sexta-feira

Diálogo

O diálogo é a aposta da defensora pública Francis Coutinho para reduzir a violência. Há oito anos, ela realiza o projeto Mediação de Conflitos no Ambiente Escolar (Mesc), em unidades da rede estadual. Vencedora de três prêmios com a iniciativa, Francis acredita na transformação da realidade dos que abraçam a ideia. Foi o que aconteceu com a Escola Estadual Renato Azeredo, em Vespasiano, na Grande BH, onde o programa foi implantado há cinco anos.

Por lá, estudantes e funcionários resolvem os conflitos na base da conversa. “Temos ótimos resultados. A instituição está inserida em uma área de vulnerabilidade social, tinha vários problemas, mas conseguimos diminuir os atritos”.

O projeto é desenvolvido em parceria com SEE e teve o termo de cooperação renovado recentemente, informou Francis Coutinho. Agora, ela aguarda o início do novo governo para saber como serão as diretrizes. “Nosso objetivo é desenvolver o programa em todas as escolas, tornando o projeto uma política pública de educação no combate à violência”.

A iniciativa é considerada positiva pelo coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública da PUC Minas, Luís Flávio Sapori. “Por meio do diálogo é possível identificar até mesmo o perfil de cada estudante, como eles são. Dessa forma, é possível trabalhar melhor com eles e até mesmo identificando os possíveis casos problemáticos”, completou.

Nesse sentido, a professora Valéria Cristina de Oliveira, da Faculdade de Educação da UFMG, reforça também ser preciso instituir grupos de conversa com os pais. “É necessário discutir os problemas, mas caminhando para a mediação dos conflitos, porque eles serão naturais em uma organização de convívio social”.

A Fundação Hospitalar de Minas Gerais informou que as córneas de Luiz Felipe foram retiradas para doação

(Colaborou Simon Nascimento)

 

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