O assassinato de dois repórteres do jornal “Vale do Aço” pode ser a oportunidade de pôr fim a uma organização criminosa que, segundo o governador de Minas, estaria agindo impunemente há duas décadas na região. Antonio Anastasia se reuniu na quarta-feira (17) com o comando das polícias militar e civil e com o secretário de Defesa Social para tratar dessa questão.

No domingo à noite, havia sido morto com um tiro de revólver calibre 38 o repórter fotográfico Walgney Assis Carvalho, que teria afirmado saber quem matara, no mês passado, em Ipatinga, o repórter Rodrigo Neto. Este apurava informações sobre um grupo de extermínio, com participação de policiais, que agia na região. As circunstâncias da morte dos dois repórteres são parecidas. Ambos foram assassinados por tiros disparados por homens que chegaram de moto e fugiram sem serem identificados.

Se agentes públicos estiverem envolvidos nos dois crimes, a questão é ainda pior. Ao reconhecer a gravidade, o governador acenou com a possibilidade de montar uma força-tarefa com policiais federais para ajudar nas investigações.

A polícia civil, após o assassinato de Rodrigo Neto, suspeitou que poderia existir relação de autoria e motivação entre esse crime e outros 14 homicídios ocorridos na região. Um deles data de 2008: um adolescente infrator teve a cabeça decepada e jogada diante da casa de um capitão da PM que apurava seu desaparecimento. A cabeça estava embrulhada em folhas de jornal, com reportagens assinadas por Rodrigo Neto.

O jornal “Vale do Aço” acusa dificuldades para substituir os repórteres mortos, pois é grande o receio. Na quarta-feira, o Grupo de Trabalho sobre Direitos Humanos dos Profissionais de Comunicação no Brasil pediu que sejam avaliados os riscos desses trabalhadores no Vale do Aço. No mesmo dia, dois repórteres do jornal de Ipatinga pediram proteção à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa.
 
A imprensa não pode ser intimidada por grupos criminosos, pois seria bastante ruim para todos os cidadãos de bem. Crimes florescem na obscuridade. Mais razão ainda tem o governo para não se deixar intimidar. Aureliano Chaves, na década de 1970, enfrentou com sucesso um desses grupos formados dentro da polícia mineira, o chamado “esquadrão da morte”. Não se pode admitir, em pleno regime democrático, que nossa polícia fique mais uma vez sob suspeita de omissão – se não de participação, em tais atividades criminosas.