As mortes por abuso no consumo de álcool em Belo Horizonte cresceram durante a pandemia. O aumento de 20% dos óbitos tem relação com o isolamento social, que prejudicou ainda mais a saúde mental dos dependentes e até com a suspensão temporária de alguns serviços de acolhimento, devido aos esforços para barrar a Covid-19.

Neste ano, 43 pessoas já perderam a vida por “consequência de transtornos mentais e comportamentais devido ao vício”. Os dados dos sete meses de 2021 são do Sistema de Informação Sobre Mortalidade (SIM), da PBH.

Com o sistema de saúde focado no combate ao coronavírus, muitas cidades mineiras precisaram suspender os serviços. Consequentemente, o auxílio aos dependentes foi prejudicado. Em Minas, nos primeiros quatro meses de 2019, foram registrados mais de 31 mil atendimentos individuais. No mesmo período do ano passado, o total caiu para 24 mil – redução de 22%.

Aqueles que buscam ajuda para tratar o vício podem ligar para o telefone (31) 3273-6204 

“A pandemia trouxe uma sobrecarga para os serviços de saúde, de forma que houve uma atenção maior ao atendimento da Covid”, disse Soraya Romina, subsecretária de Políticas Sobre Drogas de Minas.

Mudança

Durante o confinamento, os hábitos mudaram. Se antes muitas pessoas recorriam aos bares e botecos, ago[/TEXTO]ra a residência acabou se tornando espaço para o consumo de bebidas. Dentre as consequências, o aumento dos casos de violência contra a mulher, idosos e até mesmo os filhos. 

“O uso do álcool potencializa questões de violência, compromete a saúde mental e aumenta as perspectivas de suicídio”, afirma a gestora.

Uma pesquisa realizada pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em mais de 30 países da América Latina revelou que a maioria dos entrevistados começou a beber durante a pandemia para aliviar o estresse. 

Há também aqueles que passaram a fazer uso do álcool para conter a ansiedade e burlar o tédio. No entanto, o que era para ser uma forma de relaxamento, virou dependência. 

“À medida que se faz uso, não há mais essa sensação de alívio. O fato de deixar de beber em algum momento passa a ser uma condição negativa. Passa a buscar o álcool não mais para desestressar, mas para aliviar a sensação ruim que a falta da bebida proporciona”, disse Ana Lúcia Brunialti Godard, professora de Genética Humana do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.

De acordo com Grazi Santoro, co-fundadora da Associação Alcoolismo Feminino, responsável por atender mulheres de todo o país, sendo 120 de Minas, através de reuniões virtuais semanalmente, a pandemia é responsável por recaídas e foi até motivo para várias começarem a beber. “A grande maioria aumentou o consumo e nunca havia pedido ajuda”.

Serviço

Aqueles que querem ajuda, ou até mesmo buscam auxílio para um parente ou amigo, podem procurar o Centro de Referência Estadual em Álcool e outras Drogas (Cread) para orientações, através do telefone (31) 3273-6204 (de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h) ou pelo e-mail: creadmg@social.mg.gov.br.

No Estado, vagas são ofertadas em comunidades terapêuticas para quem quer, voluntariamente, tratar o alcoolismo. O processo dura de seis a nove meses. Por conta da crise sanitária, os acolhimentos e orientações psicossociais deixaram de ser presenciais e passaram a ser realizados através da internet. 

Outra opção é o Centro de Referência em Saúde Mental Álcool e Drogas (Cersam AD), da Prefeitura de BH. Por lá, a equipe multiprofissional traça um projeto terapêutico de acordo com a necessidade de cada usuário. O atendimento acontece em cinco pontos da capital mineira veja os contatos aqui.

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