Disputar espaço com motocicletas nas calçadas de Belo Horizonte tornou-se cena comum para os pedestres da capital mineira, principalmente nas imediações de agências bancárias da região Centro-Sul.

Alegando falta de vagas nos estacionamentos rotativos, os motociclistas estão optando pela infração para contornar o problema, já que o número de veículos sob duas rodas vem crescendo em alta velocidade, o que deixa a disputa pelos espaços públicos ainda mais acirrada.

Nos últimos dez anos, houve um aumento de 174% na frota de motos em BH. No mesmo intervalo, a frota de carros cresceu 87%. Segundo a BHTrans, existem, hoje, 6.740 vagas de estacionamento rotativo para as motocicletas. Na região central, são 763 vagas sem estacionamento rotativo e 394 destinadas a motofretes.

Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Motociclistas e Ciclistas de Minas Gerais (Sinsimoto-MG), Rogério Lara, esse total é insuficiente para atender à demanda da cidade.

“Os motoboys estão parando fora do estacionamento mesmo, porque as pessoas estão trocando os carros pelas motos, mas não há mais vagas. A BHTrans tem que ter o olhar voltado para isso e decidir o que quer para a cidade, se vão ser carros, motos ou bicicletas. Se for um, tem que restringir os outros, infelizmente”, destaca.

 

Impasse

Por meio de nota, a BHTrans informou que “na definição das áreas de estacionamentos no sistema viário da capital, utiliza-se como critério a conciliação dos interesses da cidade com a quantidade de espaço disponível” e que, de 2008 para cá, houve um acréscimo de 125% na quantidade de vagas para motos, enquanto a frota avançou 71,1% no mesmo período.

Mas, de acordo com Lara, para os profissionais que utilizam as motos como instrumento de trabalho, a situação é ainda mais complicada, devido à corrida contra o relógio.

“Eu só existo porque as pessoas não têm tempo. Foi dessa demanda que nasceram os motoboys. Mas ficamos nessa briga por estacionamento no Centro de BH, andando três ou quatro quarteirões até o nosso destino e gastando um tempo que não temos”, diz o presidente do Sinsimoto-MG.

 

Penalidade

Segundo Rogério Lara, nessas condições, os profissionais veem-se “obrigados” a cometer infrações de trânsito. Embora não saiba precisar se houve aumento na quantidade de multas aplicadas recentemente, Lara acredita que tenha havido elevação.

A Guarda Municipal informou, em nota, que os agentes do grupamento de trânsito “estão atentos e orientados a fiscalizar e coibir tais infrações em conjunto com o Batalhão de Trânsito da Polícia Militar”.

 

Especialista defende reavaliações periódicas

Os conflitos gerados pelo mau uso dos espaços públicos nas grandes cidades poderiam ser evitados se houvesse uma avaliação constante dos órgãos públicos, responsáveis pela elaboração e pela adoção de medidas estratégicas para o sistema viário. É o que diz o especialista em transporte e trânsito Márcio Aguiar, professor da Universidade Fumec.

De acordo com ele, para atender às demandas da população – que se modificam constantemente –, é necessário fazer reavaliações com a mesma frequência. É o que precisava ser feito, por exemplo, no caso das motocicletas.

“Se hoje o volume de motos cresce em velocidade maior do que a dos carros, principalmente as de entrega, que são de serviço, é exigido um estudo constante”, diz Aguiar.

 

Cautela

Segundo o especialista, apesar de reconhecer as dificuldades da categoria, é preciso ter cuidado ao justificar um erro com base em outro. A deficiência na infraestrutura da cidade, que já não comporta o número de veículos nos estacionamentos rotativos, não deve ser motivação para que motociclistas invadam o espaço destinado aos pedestres.

“Calçada não é lugar de fazer estacionamento de nada. Sempre tem um estacionamento de carros no qual pode ser estudada a possibilidade de agregar algumas motos. Se é uma questão de demanda, um estudo tem que ser feito”.

Aguiar destaca, ainda, que a prefeitura precisa estar em sintonia com a dinamicidade do município para detectar a tempo que a utilização de determinados tipos de veículos está adquirindo intensidade, o que exige rapidez na tomada de decisões.

 

Soluções

“As estruturas que vão fazer a gestão do trânsito têm que ser mais eficientes. Para o hipercentro, certamente, podem ser feitos, rapidamente, um estudo e uma negociação com motociclistas. A BHTrans tem que ter rapidez nesses assuntos e escutar, também, os comerciantes. Eles podem pensar em alternativas, como ceder parte do espaço para o estacionamento”, avalia o especialista.