Ao analisar uma série de homicídios que permaneciam há anos sem resposta na região Leste do Estado, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), acabou chegando a uma quadrilha que contava com políticos, fazendeiros, empresários e policiais, e que funcionava aos moldes de uma verdadeira máfia italiana. Daí o nome da operação "La Famiglia", deflagrada na manhã desta terça-feira (20), em Governador Valadares, que acabou com 21 pessoas presas. Outros seis suspeitos de integrarem a organização criminosa permanecem foragidos. 

A promotora Ingrid Veloso, que atua no Gaeco de Valadares, explica que a quadrilha comete crimes na região há pelo menos 20 anos. Por meio de influência política e membros que conseguem acessar diversas esferas da administração pública, como o sistema penitenciário, eles orquestravam ações que terminavam com o assassinato de seus desafetos, sem nunca serem descobertos ou investigados. 

"Vários homicídios aconteciam nas cidades da região, em forma de emboscada. Mas eles eram tratados isoladamente por cada comarca. Então, quando ampliamos o olhar para a região, e começamos a olhar para estes homicídios de forma integrada, percebemos que eles eram praticados pelos mesmos motivos e pelo mesmo grupo de mandantes", conta. 

Para se ter uma ideia, somente em uma cidade, Conselheiro Pena, foram contabilizados 18 homicídios no período de quatro anos, supostamente cometidos pela organização criminosa. 

"O motivo para as execuções era sempre tirar alguém que estava atrapalhando o caminho de um dos membros, seja por desacordo comercial ou familiar, seja por queima de arquivo. Por exemplo, um dos casos investigados era de um mandante da organização criminosa que tinha interesse em comprar uma propriedade rural que pertencia a um grupo de herdeiros, mas parte dos herdeiros concordava com a venda e outra parte não. Desta forma, os mandantes articularam a morte dos herdeiros que eram contra a venda", exemplifica. 

Há também casos de pistoleiros que já haviam cometido uma série de crimes para a organização e precisaram ser executados para não chamar muito a atenção. "Queima de arquivo mesmo", comenta a promotora. 

Máfia do Leste de Minas 

A investigação da "máfia" foi instaurada em janeiro deste ano, a pedido de promotores da região. A promotora Ingrid Veloso revela que para continuarem blindados, os membros do "conselho deliberativo", formado pelos integrantes mais poderosos do grupo, se articularavam para eleger pelo menos um parlamentar em cada cidade da região. 

"Isso não quer dizer que o candidato saiba da organização criminosa e esteja envolvido, mas significa que ajudando a eleger um candidato, os membros da organização passavam a se valer desta influência e, assim, garantiam cargos na administração pública da região, por exemplo, na direção de algum presídio. Desta forma, eles conseguiam entrar e sair do presídio sem constar nenhuma anotação sobre isso, mandar recado para alguma testemunha ou vítima presa", explica. 

Também foi percebido que ao longo dos 20 anos de homicídios cometidos pelo grupo, havia uma série de dificuldades para se chegar a uma solução. A influência do grupo atingia até mesmo os processos no tribunal. "Por exemplo, havia uma recusa muito grande dos jurados em participar quando alguma audiência era marcada, as testemunhas sempre tinham muito receio em dar depoimento, isso tudo era articulado por eles", lembra Veloso. 

A organização da quadrilha impressiona. "Eu diria que eles eram assustadoramente organizados. Era como uma máfia mesmo, eles resolviam tudo entre eles, não corriam o risco de deixar nas mãos de julgamentos, já se garantiam. Eles nunca se arriscavam". 

Além do "conselho deliberativo" da quadrilha, havia também grupos de executores, grupos de apoio logístico (que providenciava as armas, roupas e disfarces), o grupo que ia trabalhar no pós-crime (desviando e confundindo as investigações), o grupo que auxiliava na fuga, etc. Os mandantes, dentre os quais, muitos foram presos na operação, evitavam aparecer juntos em público. 

Além dos mandados de prisão que foram cumpridos, ainda foram apreendidos muitas armas, dinheiro, notas promissórias e anotações do bando. Os detidos podem responder por crimes como organização criminosa, homicídio, lavagem de dinheiro, corrupção, extorção, entre outros. Dentre os mandados de prisão há alvos que estão morando em outros estados e até mesmo nos Estados Unidos. As investigações continuam. 

A operação contou com o apoio da Polícia Militar e Polícia Civil de Minas, Polícia Civil do Estado do Maranhão, Secretaria de Estado de Administração Prisional de Minas (SEAP), representação da INTERPOL, Agência de Imigração Americana (Immigration and Customs Enforcement- ICE), dos Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) dos estados da Bahia, Ceará e Maranhão e da Coordenadoria de Assuntos Estratégicos e Inteligência do Ministério Público do Maranhão.