A mistura de ansiedade, frustração e melancolia pode resultar em uma receita extremamente prejudicial à saúde, principalmente, para quem enfrenta a luta contra a balança. Isso porque a linha tênue – e arriscada – entre o apetite e os sentimentos é facilmente ultrapassada, nesses casos.
 
“A fome não está no estômago, está no sistema das emoções. Precisamos trabalhar o cérebro e ensinar a ele como funciona o corpo que o acompanha todos os dias”, explica a psicóloga Halina Rezende, responsável pelo Programa de Apoio Psico Comportamental ao Emagrecimento (Proapce), desenvolvido pelo Setor de Psicologia do Instituto Mineiro de Endocrinologia.
 
A iniciativa foi criada há cerca de dois anos com o objetivo de auxiliar pacientes que estão acima do peso a identificar as razões por trás dos quilos extras. Em princípio, o programa seria executado em apenas dez sessões, mas, diante da demanda, tornou-se definitivo e já atende a mais de 40 pessoas.
 
“É como se o cérebro tivesse vários arquivos. O que fazemos no consultório é abrir os que estão doentios. Como não podemos deletá-los, vamos editando para construir arquivos novos”, afirma Halina.
Autossabotagem
 
Segundo a psicóloga, é comum os alimentos serem transformados em uma válvula de escape e cumprirem o papel de fonte de afeto ou até de alegria, extrapolando a função essencial, que é a de nutrição. Foi o que aconteceu com a dona de casa Eliane Ferreira Gonçalves Rodrigues do Amaral, de 44 anos.
 
Ela saiu dos 77 quilos para os atuais 55, mantidos com disciplina há, aproximadamente, dois anos. “A comida, para mim, era uma compulsão. Eu tinha uma vida cheia de rotina, com marido e filhos. Todo mundo tem problemas e eu acabava comendo o que não era saudável por causa disso”, lembra.
 
Em acompanhamento há um ano e meio com Halina, por meio do Proapce, Eliane, hoje, é campeã de hipismo e orgulha-se de vestir manequim 38 – depois de experimentar do 40 ao 44 durante a época do “efeito sanfona”. “Antes, eu me olhava bastante no espelho e colocava várias roupas para disfarçar, mas ficava parecendo um repolho. Hoje, aprendi que o espelho engana muito a gente, a balança é que fala a verdade, mas dela eu fugia”, revela, destacando que o programa garantiu vários benefícios, como sentir-se mais bonita e atraente.
 
No consultório, psicóloga expõe aos pacientes os próprios sentimentos deles 
 
Durante o tratamento, Halina busca trazer à tona os gatilhos para os exageros alimentares dos pacientes, de maneira que eles mesmos sejam capazes de compreender as implicações à saúde. “O objetivo é trazê-los para a realidade, fazendo com que entendam que o próprio corpo é mais importante do que tudo na vida deles e que a comida tem que ser secundária”, destaca.
 
Depois de digerir essa mensagem, a advogada Grisiele Vilhena Bastos, de 39 anos, conseguiu livrar-se de todo o excesso de “bagagem” que carregava desde a adolescência, incluindo 23 quilos. Ela divorciou-se, entrou no mercado de trabalho e mudou o visual. “Acho que a cabeça é a fonte de tudo. Toda semana a psicóloga conversa comigo sobre a importância de eu não jogar meus sentimentos nos alimentos e de comer somente para me nutrir”, afirma.
 
Apesar da atual serenidade, Grisiele enfrentou momentos difíceis na trajetória pelo corpo enxuto e até pensou em desistir, depois que foi desacreditada por um endocrinologista. “Eu havia feito a cirurgia bariátrica em 2003, mas engravidei em 2010 e engordei de novo. O médico me disse que não tinha solução para o meu caso. Eu acreditei nele, doei todas as minhas roupas dos tempos de magra e pensei que ia ser gorda para o resto da vida”, conta a advogada, feliz com os atuais 65 quilos.
 
Mas ela não para por aí. “Ainda quero emagrecer mais, quero me descobrir, ver o que falta, o que estava por trás dessa gordura toda, dessa personagem”, antecipa.