Fragilizadas, mas dispostas a romper a barreira do silêncio, vítimas da violência doméstica buscam cada vez mais ajuda contra ameaças e agressões sofridas por companheiros e ex-maridos. Por hora, quatro medidas protetivas são concedidas a mineiras no Estado. O “escudo” oferecido pela lei é importante, pois impede que os algozes se aproximem das mulheres. No entanto, outros desafios ainda estão pela frente, destacam especialistas.

De janeiro a outubro deste ano, mais de 32 mil ordens judiciais foram expedidas em Minas – média de 107 por dia. Há três meses, o Hoje em Dia mostrou que eram 70 pedidos de afastamento a cada 24 horas. Os dados são da Polícia Civil. 

Os números elevados mostram parte da violência contra a mulher. À medida em que elas estão tomando consciência e coragem para denunciar, estamos tendo noção do tamanho do problema. Agora, conseguimos perceber a ponta do iceberg que estava escondido debaixo d’água. As medidas protetivas são importantes, mas não é possível conter esses casos crescentes só com essas ações ou condenações. É fundamental ter uma medida preventiva, com mudança de valores e de cultura. Não dá para resolver essa questão só por meio da punição. É preciso construir uma nova geração de homens livres do patriarcalismo. É muito importante que esse tema fosse mais considerado no processo educacional. Tem que ser inserido a partir do ensino fundamental. Só pela lei nós não vamos mudar essa triste realidade"

Luiz Flávio Sapori, sociólogo e ex-secretário-adjunto de Segurança Pública do Estado

Para a delegada Bianca Prado, o crescimento é reflexo da coragem das mulheres em denunciar os ataques. “Os números também confirmam que a violência doméstica continua, mas elas (vítimas) estão mais conscientes para pedir amparo. Quanto mais ações realizamos, mais crescem os registros”. 

Quem decidiu dar um basta nos atos de covardia foi Sheila*, de 27 anos. A cabeleireira, moradora do Aglomerado da Serra, Centro-Sul de BH, tinha um histórico de quase uma década de agressões. A decisão ocorreu após apanhar na frente da filha, de 3. Com o homem, a mulher ainda tem outra garota, de 8.

De janeiro a outubro deste ano, mais de 32 mil medidas protetivas foram concedidas a mineiras

“Minhas meninas começaram a ficar agressivas por conviverem com aquela situação diária de violência. Quando decidi terminar a relação, meu marido tentou me enforcar. Por pouco não morri. Hoje, tenho medida protetiva, mas ele continua solto. Vivo angustiada”, desabafou.

VIOLÊNCIA MULHER
Em BH, Delegacia da Mulher fica na avenida Barbacena, 288, no Barro Preto; em Minas, denúncia pode ser feita em qualquer unidade da Polícia Civil

“Marias”

Na tentativa de colocar atrás das grades agressores como o ex de Sheila, inibindo os ataques ao público feminino, mais de mil delegados e investigadores deflagraram, nos últimos dois dias, a operação “Marias”. Na mira da polícia, suspeitos de descumprir a Lei Maria da Penha.

Ao todo, 83 pessoas, em todas as regiões do Estado, foram presas. Alguns dos detidos são acusados de violentar e abusar sexualmente até de crianças e adolescentes.

Delegada de Mulheres em BH, Isabella Franca destacou que, entre os agressores, há homens de 18 a 75 anos. “São de todas as classes sociais e escolaridade”, garantiu a policial.

*Nome fictício

Leia Mais:

Homem é condenado a sete anos de prisão em BH por tentativa de feminicídio

Seis casos de agressões contra mulheres e feminicídios são julgados esta semana em BH

Em cinco meses, Defensoria Pública dobra atendimentos às mulheres vítimas de violência em BH