Praticar a fé, exercitar a paciência, buscar a coragem, expressar a gratidão. Ensinamentos de mulheres que descobriram na batalha contra o câncer de mama não apenas uma nova chance de viver, mas também de se tornarem exemplo para quem enfrenta uma doença que mata cerca de 14 mil pessoas por ano no Brasil.

Se, por um lado, a experiência de passar por tratamentos agressivos como a quimioterapia e a radioterapia pode trazer consequên-cias tristes – como a queda do cabelo –, por outro, serve de oportunidade para aprender a lidar com o sofrimento de forma mais serena.

E foi dessa maneira que a funcionária pública Nádia Bueno, de 45 anos, encarou mais de seis meses de tratamento. Mãe de quatro filhos, ela relata que, no dia em que recebeu o diagnóstico, “perdeu o chão”. 

O câncer motivou a retirada total da mama esquerda, mas despertou na mulher uma vontade insuperável de vencer a enfermidade. “Passei a enxergar o tratamento como uma bênção, afinal era a grande chance de eu acabar com a doença”, conta. 

Amanhã, chega ao fim o Outubro Rosa, mês de conscientização sobre a prevenção à doença. Mesmo fora dos holofotes, o assunto segue como um dos mais importantes no que diz respeito à saúde da mulher.

Rosilene câncer de mama

“Veio o tratamento, com 16 sessões de quimioterapia, mas não deixei de caminhar, ir aos aniversários, fiz questão de manter minha rotina”, afirma Rosilene

Retomada

O fim do tratamento não encerrou a cruzada de Nádia. Ela percebeu que uma vivência tão transformadora não poderia terminar ali. E decidiu ajudar pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS).

Com a contribuição de amigos e familiares, a funcionária pública monta kits com lenços, itens de maquiagem e artigos para as mulheres conservarem a própria autoestima. Mais tarde, chegou a escrever um livro sobre superação, voltado para o público infantil, que é distribuído nos hospitais. A obra visa a ajudar crianças que enfrentam outros tipos de tumores.

“Ser grato, independentemente da fase vivida, tem total influência no resultado do tratamento. Cresci muito como pessoa e quero mostrar que é sempre possível florescer”, afirma Nádia.

Que o diga a empresária Rosilene Moreira, de 59 anos, que enfrentou e venceu o câncer por duas vezes. A primeira, aos 36, levou à retirada de parte da mama e sessões de radioterapia. A segunda, aos 57, foi ainda mais agressiva e obrigou a extração completa do seio. 

“Decidi viver um dia de cada vez”, conta a empresária. “Veio o tratamento, com 16 sessões de quimioterapia, mas não deixei de caminhar, ir aos aniversários, fiz questão de manter minha rotina”, acrescenta Rosilene. Foi assim que ela encontrou leveza para viver o momento extremamente delicado. “Não sofri por antecipação, passei simplesmente a enxergar o lado bom daquilo”, diz. 

Câncer de mama
“O que sempre digo para outras mulheres que enfrentam essa doença é: não escolha sofrer, escolha se curar”, diz Gisele 

Positividade

Atitudes positivas em relação à doença favorecem os resultados do tratamento. Quem afirma é Cristina Pacheco, psicóloga especialista em saúde da mulher. Ela ressalta que manter o ciclo social de convívio com os parentes e com o ambiente de trabalho é extremamente importante.

Somado a isso, destaca Cristina, a qualidade do apoio dado também faz toda a diferença. “Se a mulher tiver um companheiro, é essencial que ele esteja disponível para ajudar. Demonstrar afeto, dizer que está disposto a passar pelo problema junto com ela também ajuda bastante”, explica a psicóloga, que atua em um grupo chamado Zinnia, voltado para atendimentos a pacientes com diagnóstico de câncer de mama e seus familiares. 

Para a professora de Yoga Renata Torres, de 48 anos, que fez todo o tratamento na Santa Casa de BH, a positividade se manteve presente por meio do riso. O hábito acabou se tornando uma espécie de remédio que a ajudou a passar por 16 sessões de quimioterapia e 20 de radioterapia.

“Eu achava muitas coisas engraçadas. Um dia, uma senhora me viu careca e disse que eu estava parecendo o padre Marcelo Rossi. Passei quase duas semanas rindo daquilo”, relembra Renata.

14 mil pessoas morrem no país todos os anos com câncer de mama, segundo dados do Inca

Câncer de mama
Renata fez o tratamento na Santa Casa de BH e sempre manteve o bom humor para vencer a doença

Diagnóstico precoce reduz taxa de mortalidade
 

Por ano, cerca de 60 mil novos casos de câncer de mama são notificados no Brasil, segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Graças às possibilidades de diagnóstico precoce, no entanto, a taxa de mortalidade não tem crescido no país.

O médico Marcelo Bello, mastologista e diretor do Hospital do Câncer III (anexo ao Inca), explica que todo cuidado é válido na prevenção, uma vez que fatores externos, quando somados, podem aumentar a probabilidade da doença.

“Na prática, a falta de atividades físicas, a obesidade e o uso excessivo de álcool são fatores que influenciam diretamente. Além disso, é essencial que a mulher conheça as mamas e faça a mamografia a partir dos 50 anos”, alerta Bello. 

“Se a mulher tiver um companheiro, é essencial que ele esteja disponível para ajudar. Demonstrar afeto, dizer que está disposto a passar pelo problema junto com ela” (Psicóloga Cristina Pacheco)

Coragem

A fonoaudióloga Gisele Chaves, de 48 anos, assim como muitas mulheres, percebeu em casa, “algo estranho” nas mamas. Em outubro de 2015, recebeu o diagnóstico mas, ao invés de se encher de tristeza, decidiu ser mais corajosa.

“Só tinha duas opções: enfrentar o problema ou chorar. E sofrimento é algo opcional”, opina. “Decidi, então, assumir minha careca e fiz a quimioterapia dia após dia, sem deixar de trabalhar em nenhum deles”, relata. 

O processo, conta Gisele, a ensinou a ter mais paciência e a não dar valor a assuntos sem importância. “O que sempre digo para outras mulheres que enfrentam essa doença é: não escolha sofrer, escolha se curar”.

Confira o vídeo com os depoimentos das personagens: